sexta-feira, novembro 03, 2006

País

Idéia prum livro. Um romance histórico. Vou chamá-lo de “História do Brasil”, com letras douradas de enciclopédia, cheias de autoridade. É um título excelente, mas pode ser que estrague o final, que é a melhor coisa da idéia, surgida depois para complementar o final brilhante que o título estraga. Mas enquanto não pinta outra sugestão, fica esse mesmo, porque é um título excelente.

O livro começa com um mapa do Brasil na folha de rosto, um mapa invertido, inclinado, visto de um ângulo que o deixe irreconhecível. O mapa tem fronteiras diferentes do território brasileiro atual, e é todo subdividido em linhas que demarcam nações desconhecidas, com algumas áreas hachuradas, e se formos procurar na legenda, descobriremos que hachura representa “exterminado” e a não-hachura, “ainda preservado”. O ano do registro cartográfico é 7498.

Nas últimas páginas fica anexado um encarte com a cronologia das diversas culturas que habitam e habitaram a região, desde o início. Os primeiros traços de civilização surgiram por volta de 6000 a.C., portanto antes dos egípcios, sumérios e chineses. É a partir dessa data que o livro se desenvolve, embora o calendário usado como referência seja outro, tomando como marco a criação do mundo. Para os povos retratados no romance, o planeta foi criado por seus ancestrais diretos, tão humanos quanto qualquer um, que tiveram a idéia de juntar fragmentos de estrelas para formar uma superfície firme, onde as plantas e os animais puderam crescer.

Eles não acreditavam em nenhum Deus. Essa ausência de fé resultou em desprezo pela punição divina, o que gerou sociedades extremamente violentas, que iam à guerra por qualquer pretexto. O livro mostra a evolução desses vários povos, guerreiros e ateus no geral, mas muito diferentes no particular, que se enfrentam e se aliam, fazem comércio e espionagem, dominam o mundo e entram em colapso. Começa quando esses povos despertam para a civilização e vai acompanhando seu desenvolvimento em saltos de um quarto de milênio. Cada capítulo começa com um mapa, mostrando como está a geopolítica no momento, e é escrito em primeira pessoa pelo líder de uma das civilzações existentes à época retratada. Os capítulos cobrem períodos breves, uma batalha, uma revolta, o impacto de um avanço tecnológico, ou mesmo uma intriga palaciana. Os 250 anos de intervalo entre um e outro devem ser imaginados ou deduzidos pelo leitor, embora a narração forneça, nos detalhes, pinceladas do que pode ter ocorrido.

O romance termina no 35o capítulo, numa sociedade futurista, em meio a um esforço coletivo pela lavagem cerebral de toda a população. O que pode levar a uma medida tão drástica eu ainda não tenho certeza, uma hipótese é a consciência ecológica dos povos, que por se considerarem construtores do mundo, sentem-se muito mais responsáveis pela natureza. O progresso desenfreado e as seguidas guerras leva cientistas de diferentes civilizações a concordarem que a raça humana é daninha ao planeta, e que qualquer coisa diferente de uma retirada da parte do cérebro responsável pela índole violenta e predadora do homem é mero paliativo que somente adiará o fim do mundo. O povo se submete à cirurgia, alguns como voluntários, outros à força, e a maioria sem sequer ser informada. Ao mesmo tempo, todos os sinais de ocupação humana são apagados, cidades inteiras desaparecem, e a vegetação, antes confinada em estufas, é toda replantada. Em poucos meses, quase toda a população extrai um pedaço de massa encefálica. Todos se tornam muito mais pacíficos vivendo em harmonia com a natureza, mas outras funções cerebrais também são afetadas pela operação. O raciocínio fica mais lento, e a linguagem se reduz à sílabas simples, além de ninguém mais se importar de andar pelado.

E no exato instante em que os dois últimos cientistas concluem com sucesso as cirurgias de um no outro, no momento preciso em que toda a memória de uma cultura fantástica é exterminada, é quando elas chegam. Quando chegam as caravelas, e acham os índios.

14 Comments:

At 10:46 PM, novembro 06, 2006, Anonymous pulinha said...

a coisa anda tão feia que nem extração cerebral adianta mais...

(esses seus posts são bons, mas andam muito sérios!! eu gosto mais quando você fala besteira...)
 

At 1:19 AM, novembro 07, 2006, Anonymous Douglas said...

Caraca... sensacional...

tu vai escrever esse livro, neh?
 

At 10:37 AM, novembro 07, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

Po, sério que é muito sério? Eu acho tão divertido... Mas o próximo vai ser mais nonsense, até porque eu não tenho idéia do que falar sobre continentes se não for pra anarquizar.

Douglas, claro que não, tá doido!
 

At 1:18 PM, novembro 07, 2006, Anonymous Douglas said...

to nada, me amarrei no tema nonsense =P
 

At 12:12 AM, novembro 08, 2006, Blogger Guilherme said...

Se um dia eu virar escritor, posso roubar a idéia?
 

At 12:58 AM, novembro 08, 2006, Blogger Guilherme said...

Pensando bem, melhor não. Eu teria que responder um monte de processos de associações indígenas, indigenistas e indianas por chamá-los de lobotomizados.
 

At 8:42 AM, novembro 08, 2006, Anonymous Anônimo said...

Di,

Me amarrei..
Acho este tema otimo para um livro, que eu ainda vou ver algum deles editado e com muito sucesso.
Torço por voce.
bjokas,
 

At 12:28 PM, novembro 08, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

Pode roubar sim, tomara que faça um puta sucesso, mesmo que modifique o final. Isso só colabora pro meu plano secreto de virar um gênio desconhecido.
 

At 9:21 PM, novembro 10, 2006, Anonymous camila, deine liebe schwester said...

vai ser lançado quando mesmo?
 

At 7:48 AM, novembro 16, 2006, Anonymous luyza pereira said...

Ponto 1: mas como eh que o medico lobotomizado conseguiu operar o outro? teoricamente ele ficou meio limitado, nao? possibilidade 1: ele matou o ultimo de cerebro inteiro durante a operacao; possibilidade 2: sobrou um de cerebro inteiro q dominou o resto da civilizacao selvagem.
Ponto 2: se eles eram tao avancados e sinistros, como eles deixaram escapar todo um outro mundo do outro lado do oceano q fazia caravelas?
 

At 5:59 PM, novembro 16, 2006, Anonymous Daniel Veloso said...

Mas esse esforço de lobotomizar todo o mundo iria para o espaço quando essa geração tivesse filhos. Afinal, a lobotomia não altera o dna, e se eles ficam idiotas depois da cirurgia, não podem operar os filhos. Isso geraria uma sociedade de adultos retardados comandados pelos seus filhos inteligentes e, dado à falta de instrução familiar, provavelmente mimados, egoístas, desleixados, ignorantes e incestuosos.
Por isso, acho difícl que essa sociedade gerasse novos índios. Afinal, acho que é um quadro bem parecido com o sul dos EUA, e eles estão mais pra vikings do que pra índios.

Acho q estragamos seu livro...
Mas talvez assim seja melhor. Se vc tiver um livro para escrever, vc não vai ter tempo para atualizar seu blog. Desta forma nós realimentamos a relação de codependência que nos mantêm unidos, desocupado que escreve um blog e desocupados que lêem o blog.

Abraços de afogado...
 

At 8:21 PM, novembro 16, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

Luayza, estou sentindo que seus comentários têm ficado mais idiossincráticos que o próprio blog. Legal, acho isso o bicho, vc pegou o espírito direitinho! Mas vamos tentar justificar os furos que vc achou:

ponto 1: os médicos se lobotomizaram ao mesmo tempo, foi uma dupla operação realizada em sincronia total. Provavelmente não deu pra suturar, mas o mais importante eles conseguiram.

ponto 2: e quem disse que eles ignoraram a civilização européia? Agora nunca saberemos...

ponto 3: daniel, esse é pra vc. O seu é o mais fácil. Afinal, os filhos dos lobotomizados serão tão burros quanto os pais, é como se Einstein fosse abandonado na floresta e criado por macacos. Eles vão aprender os valores que seus pais lhe ensinarem, como amor à natureza e andar pelado, e não vejo por que se tornarão incestuosos, desleixados, mimados, etc etc. Mas seria legal se virassem incestuosos.

Ainda vejo mercado para o livro. Código da Vinci tem mais furos do que "História do Brasil".
 

At 3:09 PM, novembro 19, 2006, Blogger Mauro said...

Bota uns bichinhos mágicos de orelha pontuda na história. Vai estragar o livro, mas está provado que isso vende pra caramba.
 

At 10:24 PM, março 01, 2015, Anonymous Anônimo said...

Quero esse livro para ontem! :) A ideia é incrível e você pode substituir as operações por alguma espécie de hipnose coletiva promovida por um computador que se autodestrói logo depois.

Pati
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
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