segunda-feira, janeiro 09, 2006

Eleanor Rigbies – The people behind the songs

É esse o título do novo esforço conjunto dos herdeiros dos Beatles – Ringo Starr, Yoko Ono, Olivia Harrison e, principalmente, Paul McCartney, que dos quatro era o que mais se divertia inventando personagens para suas composições. Com a chancela dos outros três, Paul relata quem foram as pessoas que o inspiraram a criar as músicas que levam seus nomes, as Eleanor Rigbies e os Sgt. Peppers anônimos que se eternizaram na discografia da banda mais popular do planeta. Por exemplo:

Michelle, ma belle, tinha só dois anos de idade quando o pai lhe dedicou essa canção, e talvez fossem mesmo essas as únicas palavras que entendesse, já que teve um aprendizado difícil na primeira infância, demorando para começar a andar, falar e desmamar. Mas a menina cresceu esperta daí em diante, e se já provavelmente não simpatizava com a figura do pai ausente durante o auge da Beatlemania, a relação degenerou feio quando Paul inabilmente usou um suposto desenho da filha como defesa contra as acusações de que as iniciais do título da música Lucy in the Sky with Diamonds eram uma referência ao LSD. McCartney citou o trauma da morte da gata Lucy na filha, que ilustrou sua chegada num céu povoado de estrelas de diamante. A mídia sensacionalista então acusou o beatle de drogar a própria filha, e a calúnia tomou tal dimensão que para desmenti-la Paul precisou negar toda a história, revelando que, sim, nem sequer tivera uma gata chamada Lucy, mas esse era o nome do felino de olhos espiralados que lhe aparecia nos sonhos alucinógenos depois de seguir o coelho do relógio. Michelle, incentivada pelas tias, nunca perdoou o pai pelo episódio, mas não era menina de externar suas insatisfações. Contudo, trinta e um anos depois, ao abrir por acaso a internet na casa de McCartney enquanto este estava no banheiro, deu de cara com uma conversação erótica no ICQ entre Paul e uma moça chamada Rita – ele a chamava de Lovely Rita. Michelle botou a boca no trombone e só não gerou um enorme escândalo porque o pai se desfez de um quarto de sua fortuna subornando juízes e jornalistas. Mas não conseguiu evitar a separação de sua mulher Linda, vencida por um câncer de mama alguns meses depois. Michelle hoje freqüenta um psicanalista para superar o complexo de culpa pela morte da madrasta.

A voz quente de Billy Shears respondendo “yes, I’m certain that it happens all the time” à pergunta “do you believe that there is love at first sight” em uma simulação de entrevista durante a música “With a little help from my friends” costumava deixar apaixonadas as moças dos anos quarenta, ávidas por uma piscadela do cantor. “With a little help from my friends” foi o maior sucesso na longa carreira da sempre cambiante banda de Sgt. Pepper, chamado Coração Solitário, alcançando projeção mundial com a versão cover cantada por Ringo Starr incluída no mais famoso álbum dos Beatles. Billy Shears foi o crooner de maior destaque da banda de Sgt. Pepper, que não diferia muito em estilo de tantas outras que circulavam em eterna turnê pelo interior dos Estados Unidos, interpretando clássicos do cancioneiro americano em festivais de pecuária e feriados regionais, em cima de coretos e palcos temporários ao ar livre. A grande diferença era que a banda era também um projeto social. Sgt. Pepper era um idealista, que movido pela paixão pela música e pela sede de mudar o mundo, reunia jovens carentes e lhes oferecia treinamento musical nos fundos de casa. A banda tinha alta rotatividade, pois assim que Pepper via que um músico já tinha amadurecido o suficiente para não precisar mais de sua ajuda, dispensava-o e escolhia um de seus alunos para substituí-lo. Billy Shears era a exceção. O enorme prejuízo que a banda dava para a pequena e em breve extinta fortuna do sargento viram no garoto descoberto num reformatório juvenil a melhor solução. Billy, além da voz grave e limpa, tinha excelente postura de palco e se revelou um incrível chamariz de público para a banda. Mas ao contrário do que fazia crer nas moças da platéia ao declarar sua certeza no amor à primeira vista, tinha caráter incerto e um indomável pendor para a cafajestagem. Shears gastava imprudentemente o dinheiro ganho com o grupo, e suas atitudes grosseiras e arrogantes nos bastidores provocaram sérias discussões com Sgt. Pepper, que mais de uma vez o expulsara da banda, mas sempre o readmitia ao vê-lo regressando em estado deplorável e implorando clemência algumas semanas depois. O sargento era um ardoroso defensor da bondade intrínseca da alma humana, e sempre lhe dava outras chances. Em seu último afastamento, entretanto, Billy Shears resolveu que seguiria carreira própria. Extremamente talentoso, mas desorganizado, alcoólatra e sem um agente que pudesse administrar sua agenda, marcava shows às vezes com intervalos mínimos, o que o forçava a dirigir a noite inteira entre duas cidades. Numa delas, acabou atropelando Jojo, por coincidência um velho desafeto, – Jojo was a man who thought he was a woman – nas palavras maldosas de Billy. Jojo foi arremessado a vinte jardas de distância pelos cento e quarenta quilômetros por hora do Opel de Shears, e nem se este houvesse parado para socorrê-lo teria sobrevivido. Dado que a fama e a reputação de encrenqueiro do cantor já eram bastante conhecidas, o caso tomou grande dimensão no estado. O Sgt. Pepper, a quem Billy já se encarregara de abalar as convicções, se desiludiu de vez e aposentou a banda. No livro que escreveu sobre sua experiência de vinte anos funcionando como fábrica de músicos, disse, na última página, que o ser humano é naturalmente bom – mas há exceções. Essa frase virou slogan e foi usada em cartazes pelos espectadores do julgamento de Billy Shears, que pegou quinze anos de regime semi-aberto.

Molly foi a última das amigas de Eleanor Rigby a arranjar marido. Apesar dos oito graus de miopia e da voz fanha, Molly foi capaz de fascinar o feirante Desmond, e agora eles eram Desmond & Molly Jones. Eleanor Rigby, 43 anos, pegou o buquê de flores arremessado pela amiga disputando com garotas de metade da sua idade, e já era a quarta vez seguida que era ela a premiada. Ficara evidente que as amigas estavam tentando dar um empurrãozinho, mas Rigby parecia destinada a terminar a vida sozinha. Entretanto, do outro lado do corredor que cobria de arroz os recém-casados estava Judlon, e para ele a festa era secundária. Contemplava Eleanor Rigby, seu semblante de frustração mal-disfarçada, e se perguntava se ela sequer se lembrava dele. Judlon e Eleanor estudaram na mesma High School, lá se vão vinte e tantos anos, no tempo em que Eleanor Rigby era uma das meninas mais fascinantes do colégio. Era bonita e vinha de família rica, os gracejos e cantadas lhe chegavam de todos os garotos da turma. O único que se calava diante da bela Eleanor era o próprio Judlon, que de todos era o mais apaixonado, e por isso mesmo, o mais reticente em abordá-la. Um dia, no entanto, o pai de Rigby perdeu toda a sua fortuna numa jogada errada na bolsa de valores, e pulou da janela. Elly passou da riqueza à miséria em questão de dias, acabou excluída do grupo das garotas mais populares, e em breve teve que se retirar do colégio, pois não tinha mais como pagar. Tentou seguir o exemplo do pai e se matar, mas foi descoberta a tempo pela irmã mais velha, inconsciente com a cabeça no fogão. Começou a comer chocolates compulsivamente e desde então nunca mais foi a mesma. Judlon, contudo, não a havia esquecido. É verdade que a fixação foi ao longo dos anos esmorecendo, mas ao encontrá-la por acaso no casamento do amigo Desmond, aflorou inteira mais uma vez. Ele tentou dirigir-lhe a palavra mais de uma vez durante a cerimônia, mas não se impôs o suficiente para ser ouvido. Resolveu, logo após o casamento, subir uma das colinas ao lado da paróquia, onde morava, recluso numa caverna, um senhor barbado raquítico que o povo da cidade apelidou sarcasticamente de “Fool on the Hill”. Também Judlon nunca levara muita fé no velho, mas seu amigo Desmond repetia que ele era um mago, um conselheiro espiritual que se corretamente interpretado, transformaria qualquer homem num rei. Assim que chegou, o Fool pegou-o firme pelo braço e começou um discurso incongruente sobre morsas, pingüins e Edgard Allan Poe. Depois de dez minutos de abstração, olhou Judlon nos olhos e lhe disse: “Hey Jude, don’t make it bad!” E só então largou-lhe o braço, acendeu o longo cachimbo e entrou num transe que iria durar horas. Judlon saiu atordoado da colina, não entendeu nada da prosa surrealista do velho, mas sentiu-se impelido a procurar Eleanor Rigby e lhe pedir em casamento, e foi o que fez. Eleanor não se lembrava de Judlon, mas aceitou a proposta mesmo assim. Os dois se casaram três semanas depois, e hoje ainda vivem juntos. O buquê atirado pela noiva foi pego por Lady Madonna.

18 Comments:

At 10:43 PM, janeiro 09, 2006, Anonymous ronzi said...

hoho! Eu aceito sua ajuda e já vou agradecendo, hehe.

Abraço.
 

At 11:03 AM, janeiro 10, 2006, Anonymous Lili said...

Moço-Rodrigo.
Tá, eu entendi que é sobre os Beatles e as músicas dos ditos, mas... minha ignorância no assunto me deixou por fora. Só reconheci Hei Jude.
Ignorante, eu sei.
Bjo.
 

At 11:42 PM, janeiro 10, 2006, Anonymous ronzi said...

quando puder me escreva para ronzi.zacchi@terra.com.br
 

At 12:59 PM, janeiro 11, 2006, Blogger Mauro said...

Fiquei na mesma que a lili.
 

At 2:07 PM, janeiro 11, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

vamos fazer um concurso entao.

tem 11 músicas escondidas nesse post. Algumas escancaradas (citadas pelo nome), outras um pouco mais complicadas de achar. Tirando uma, todas de domínio do grande público.

O placar por enquanto tá Lili-1, Mauro-1. Alguém consegue mais?
 

At 5:01 PM, janeiro 11, 2006, Anonymous André said...

Michelle,
Lady Madonna,
Hey Jude,
The Fool On The Hill,
Eleanor Rigby,
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band,
Lucy In The Sky With Diamonds,
Lovely Rita,
Get Back,
Ob-la-di Ob-la-da,
With a Little Help From My Friends

eh isso?

André

ps. post sensacional...
 

At 5:31 PM, janeiro 11, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

é rapaz... I have to admit it´s getting better!

achei que tudo estava perdido; andré, valeu por salvar a pátria (po, até obladi oblada vc matou)!

agora, teve um errinho meu aí. Esqueci de contar Lady Madonna, então na verdade são doze. Tá faltando uma, citada muito en passant.

alguém?
 

At 9:49 PM, janeiro 11, 2006, Anonymous Bárbara said...

I am the walrus!

O papo do Fool on the hill sobre morsa, Edgard Allan Poe...

Acertei? eba!!


Como sempre, show de bola seu post
 

At 11:27 PM, janeiro 11, 2006, Anonymous Lili said...

Moço,
Lucy In The Sky eu conheço. E reconheci, a história do gato e tudo, mas não lembrei de dizer - tava confusa demais de ler um post inteiro e não entender patavinas.
With a Little Help eu até já ouvi com os Beatles, mas adoro mesmo a versão do Joe Cocker.
Obladi-Oblada tem uma versão no 1° disco do Pato Fu, sabia? A versão original eu acho que eu não conheço.
O resto continua em brancas nuvens.
Bjo.
 

At 8:17 AM, janeiro 12, 2006, Blogger Maninha ou Mamae said...

Di,

Descobri que conheço todas essas musicas, sem exceçao.Todas sensacionais!!!
Nao sei se é bom ou ruim...
Na verdade ,isto quer dizer que estou velha mesmo...
bjs,
 

At 9:27 AM, janeiro 12, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

Aí Bárbara, matou a charada!

Coo-curucutchu, Coo-Coo-curucutchu!

Agora sério, tenho a impressão que os Beatles são às vezes vítimas de sua própria fama. Quando a quase totalidade das resenhas musicais te diz que eles são a melhor banda do mundo, acho que a tend⁄ência é acabar se afastando desse julgamento, seja por vontade de conhecer algo novo, seja pra afirmar uma personalidade diferente da média - e aí acaba que não se conhece a banda além das quinze músicas que tocam no rádio, ou se conhece mais os covers que os originais (e o seu comentário, Lili, acaba comprovando isso - aliás a versão do Pato Fu é bem legal).

Aliás, a presença dos Beatles no rádio, principalmente essas como Antena 1 Light FM e genéricos, é tão maciça, e as dez ou quinze músicas que tocam nela são tão batidas (quem já não encheu o saco de Help, Yesterday, Hey Jude, Hard Days Night, Ticket to Ride, etc.), que nem dá mais pra avaliar direito, nada nessas músicas é novidade, nada te desperta da passividade. E acaba que, justamente por causa dessa megapopularidade, ninguém se interessa em descobrir as dezenas de outras canções sensacionais dos discos, e presume que é tudo esquema música pra boi dormir tb.

Eu mesmo só fui cativado de um ano e meio pra cá quando me caiu em mãos (sem querer) um CD com toda a discografia deles em MP3 (e mesmo assim demorou pra eu me interessar e botar pra tocar).

E mãe, que vc conhece e acha todas essas músicas sensacionais, pra mim não é novidade nenhuma! Vc não era Beatlemaníaca?
 

At 7:31 PM, janeiro 13, 2006, Blogger Mauro said...

Na verdade eu tinha identificado boa parte, mas eu boiei tanto no texto que acabei achando que tinha perdido mais. o meu score detalhado foi:
Hey Jude,
The Fool On The Hill,
Eleanor Rigby,
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band,
Lucy In The Sky With Diamonds,

e pode me crucificar por não identificar get back.
Mas hein, o mau uso dos beatles é realmente desgastante. Provavelmente muita gente acha que eles são gênios é pelas músicas pra boi dormir mesmo. Antes de ouvir o Revolver eu achava os beatles meio batidos. Mas existe uma razão pras músicas deles não tocarem tanto assim, uma história com o Michael Jackson, eu acho...
Originais mesmo eram o Rockin Dino
 

At 11:53 AM, janeiro 14, 2006, Anonymous Carlos said...

A letra da música Eleanor Rigby é bem interessante. Por vezes, parece uma grande "viagem", mas tem algum sentido. Abraço.
 

At 1:20 PM, janeiro 16, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

po mauro, acho que toca até demais, tanto que todo mundo já enjoou, só que toca no máximo umas quinze (o que nem é pouco - quantas tocam sistematicamente dos stones, ou do u2, ou do nirvana, ou do pink floyd?) O michael jackson comprou da gravadora todo o arquivo dos beatles, mas acho que isso não tem nenhuma influ⁄⁄encia nos radios.

carlos, se vc acha eleanor rigby estranha, procura a letra de i am the walrus.É completametne sem pé nem cabeça. abs!
 

At 2:23 PM, janeiro 16, 2006, Anonymous Douglas said...

sem sentido?

Revolution Number 9

quem dá mais? quem dá mais?
 

At 1:31 PM, janeiro 17, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

sabe que eu nunca ouvi essa música? Entre as mp3 que eu tenho aqui, acho que é a única que tá faltando (censura?)

tem como me passar por email?
 

At 9:37 AM, janeiro 19, 2006, Blogger Guilherme said...

Excelente!!!
 

At 6:07 PM, abril 07, 2009, Blogger matheus said...

Este comentário foi removido pelo autor.
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

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