terça-feira, dezembro 06, 2005

Esplanada das Bandeiras


É um pouco frustrante a visita ao Palais des Nations em Genebra, a segunda sede da ONU depois de Nova York. Como qualquer prédio correntemente usado por chefes de estado, a gente sofre certas restrições de segurança e acaba não podendo ver as partes mais interessantes. Mas o tour virtual disponível nos terminais da recepção compensam a falta de liberdade de circulação, contando várias histórias de bastidores que ninguém nunca ia imaginar.

Logo de início uma personagem animada nos aborda, e se propõe a entrar em minúcias sobre cada aposento. Escolhi a Esplanada das Bandeiras, uma alameda que conduz à entrada principal do Palácio, cercada por uma fila dupla com as flâmulas de todos os países membros da ONU. A esplanada, me disse a guia virtual, foi objeto de uma das maiores polêmicas passadas nos quase quarenta anos de conferências realizadas no Palais des Nations. Ao final de diversas assembléias, as 191 nações representadas chegaram a um triunfo diplomático, prescindindo de declarações de guerra e com apenas uma sentença de morte. Decidiram a ordem das bandeiras na esplanada, quem vinha primeiro e quem vinha por último.

A idéia mais lógica de ordenação alfabética sofreu muitas restrições, pois não se chegou a uma conclusão sobre que língua usar. O secretário suíço propôs que o nome dos países fossem listados em francês, idioma corrente em Genebra, mas foi contestado pelo próprio assistente, que vinha de Zurique. O inglês também não foi bem recebido, alvo de ressalvas até mesmo dos representantes dos Estados Unidos e do Reino Unido, que preferiam uma língua onde o substantivo viesse antes do adjetivo, ou o "United" os jogaria pro fim da fila. Alguém sugeriu que se fizesse uma ordem alfabética usando o nome de cada nação em sua língua oficial, mas os secretários do Canadá, Bélgica e novamente Suíça começaram a se atracar para decidir qual era a língua mais importante em seus países, e os indianos nem isso fizeram, pois não compreendiam os dialetos um do outro.

Os americanos apresentaram mais uma proposta então, levando em conta o sentido de leitura no mapa-múndi, da direita pra esquerda e de cima pra baixo, começando ali no Alaska. Apesar da concordância do Canadá e dos países escandinavos, a idéia gerou enorme grita nos países árabes, que lêem ao contrário, e nos países do sul, que aproveitaram para contestar a visão eurocêntrica das projeções do globo. Os Estados Unidos tentaram mudar o critério para ranking do PIB, e a Noruega quis mudar para ranking do IDH. Os países africanos entraram em alvoroço e ameaçaram deixar a reunião, o contra-ataque foi imediato: Burkina Faso e Mauritânia fizeram uma proposta em conjunto que ordenasse as bandeiras de acordo com a porcentagem de portadores do vírus HIV na população. O Brasil quis usar o ranking da Fifa. A Líbia sugeriu uma ordem que levasse em conta as próprias bandeiras, seguindo a área total da cor verde em cada uma. A Austrália pediu que os países fossem listados conforme o tamanho do maior meteoro já caído em seu território.

As propostas começaram a ficar tão absurdas que os representantes aos poucos foram cedendo e voltando a idéia alfabética, mas usando o esperanto. O Zimbábue e a Zâmbia ficaram de birra, e tentaram incentivar a idéia da Líbia, mas foram abafados. A sugestão só passou pelo crivo dos Estados Unidos quando lhes foi permitido que seu nome oficial ficasse sendo somente América, e o resultado acabou aprovado com grande maioria. Mas os americanos se arrependeram quando, anunciada a decisão, a até então quieta delegação afegã começou a comemorar, pular e fazer caretas em sua direção. Atordoados, os diplomatas não conseguiram esconder seu desespero e já recebiam ligações furiosas do presidente pelo celular quando um deles levantou-se com uma idéia:

– Mr. Annan, os Estados Unidos da América querem que seu nome em esperanto mude para A

– A? – pergunta Kofi Annan, incrédulo. – Só A? Que raio de nome é esse?

– É uma homenagem a todos os bravos americanos que precisam da letra A para atingir o sonho americano. Os dentistas (abre bem a boca e diga A), os otorrinolaringologistas, os suicidas, todos eles.

O secretário afegão interveio:

– O Afeganistão então quer mudar seu nome para !.

– Não seja ridículo, – falou o representante americano, – como é que se vai pronunciar isso? ! não é nome.

– ! é nome sim, e sempre que alguém tiver um sorriso nos lábios, o estará pronunciando, é uma exclamação de alegria. Pois o Afeganistão é a terra da harmonia e da paz.

Todos os países começaram a mudar seus nomes para sinais de pontuação e símbolos gráficos, tornando o esperanto inútil para ajudar na ordenação das bandeiras. O secretário geral das nações pediu para que parassem com a algazarra, e já gritando, praticamente impôs uma forma de ordenar alfabeticamente os símbolos, que iam de crucifixos a metralhadoras, de desenhos incompreensíveis a crucifixos com metralhadoras em cima. Kofi Annan definiu que uma máquina dessas que arremessa bolas de beisebol (confusão novamente, acabaram mudando pra bolas de tênis) jogaria bolas com números, e os representantes que pegassem as menores seriam os primeiros na ordem alfabéticas de seus novos nomes impronunciáveis. Todos se aglomeraram no centro do auditório de reuniões enquanto a máquina zunia a sorte de cada um pelo salão. Cento e noventa e uma bolas depois, foi conhecida a ordem: a primeira bandeira seria da Costa Rica, seguida pelas da Guiné Equatorial, Espanha e Emirados Árabes Unidos. O Paraguai ficou com a última posição. Todos os países concordaram com o resultado e assinaram a ata da reunião pacificamente, mas o chefe da delegação afegã acabou condenado à morte ao voltar para seu país, pois apesar de uma boa 34a colocação, terminou atrás dos Estados Unidos. Na Esplanada das Bandeiras foi plantada uma rosa em sua homenagem.

12 Comments:

At 7:37 AM, dezembro 07, 2005, Anonymous Bárbara said...

Rodrigo,

Sério... essa foi a melhor crônica até agora. Sensacional. Dessas que dá vontade de sair mandando por email pra todo mundo (e eu nunca fiz isso na minha vida). Dessas que a professora dá pros alunos lerem, e eles acham engraçado na hora, mas só entendem o impacto que causou anos mais tarde.

Parabéns. Matou a pau.

bjs
 

At 7:52 AM, dezembro 07, 2005, Blogger Maninha ou Mamae said...

Rodrigo,

Voce se supera a cada post.
Esta está demais..
Acho melhor mudar de profissao..don't you think so???
bjs,
 

At 9:11 PM, dezembro 07, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

barbara, valeu, me amarrei que vc gostou! vou até reler o texto de novo, se bobear eu tb só vou entender o impacto dele daqui a alguns anos =) beijao!

e mae, vc nao vale!

e quem ainda estiver por aí: finalmente atualizei as fotos no multiply, tem mais de trezentas novas, começando lá na outra página, depois de copenhague. Diversão garntida pro fim de semana de vcs!
 

At 11:56 PM, dezembro 07, 2005, Anonymous Lili said...

AMEI!
Você é muito surtado, rapaz! Que coisa louca essa história das bandeiras!
Fiquei imaginando a tal reunião...
Bjo.
 

At 5:58 PM, dezembro 08, 2005, Anonymous Anônimo said...

Rody
Eu morri de rir enquanto lia essa historia... realmente vc se superou!! Eu sinceramente acho que vc devia ser escritor.
E vc teve paciencia pra pesquisar todas as capitais com B??? Vc e suas bandeiras, paises e capitais...
bjos
maninha
 

At 8:53 PM, dezembro 08, 2005, Anonymous camila, deine liebe schwester=D said...

genial! gosto muito!
mas afinal, como tá a ordem das bandeiras?
 

At 10:13 PM, dezembro 08, 2005, Blogger Alexandre said...

por favor cara, sem brincadeira agora. serio. de verdade mesmo. qual diabos é a ordem das bandeiras??
 

At 7:40 AM, dezembro 09, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

boa pergunta, eu nao sei tb. A foto mostra as que estao mais perto da rua, foi tirada pela grade (é, eu nem entrei na parada). Fiquei me perguntando em que ordem eles teriam colocado, porque a princípio não faz muito sentido. As únicas que dá pra reconhecer ali sao as da Ucrânia, Namíbia e Canadá. Uma outra pode ser da Bélgica, outra talvez da Suíça, outra ainda da Venezuela, e tem uma que pode ser dos EUA, Libéria ou Malásia. Isso pra mim não dá a menor pista de que ordem eles podem ter usado. Terá sido sorteio? Bolinhas numeradas jogadas sobre os diplomatas? Concurso de arrotos? E ainda: estar mais perto da rua é melhor ou pior do que estar perto do Palácio? Onde deve ficar a bandeira escolhida como número um?

A história toda do post é uma suposição, mas deve ter dado chabu mesmo na hora de escolher.
 

At 7:44 PM, dezembro 09, 2005, Anonymous Anônimo said...

� eu ia perguntar qual � a ordem... tenta descobrir...
ah... sabia que naquelas fotos que vc ta com barba e todo cheio de casaco vc tava parecendo um pirata russo?... rsss
leti
 

At 4:39 AM, dezembro 10, 2005, Anonymous Douglas said...

ehehehehe

essa foi maneira mesmo =]

só comparável ao Elevador, que por acaso ainda tenho na minha máquina =D
 

At 8:26 PM, dezembro 12, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

caraca, o elevador é do baú!
 

At 1:59 PM, dezembro 16, 2005, Anonymous Luayza said...

realmente incrível, rodrigo. nem vc parece ter percebido, mas arrasou mais uma vez.

bjs

luayza
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
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