terça-feira, outubro 17, 2006

Cidade


E se os pedestres andassem por cima dos prédios? Ver os tetos de Copacabana todos lisinhos no mesmo patamar me fez pensar que aquilo bem poderia ser um chão elevado a cinqüenta metros de altura em vez da terra de ninguém que é. A circulação a pé no nível do mar devia ser abolida, deixando as ruas avançarem de vez sobre as calçadas.

Imagine a cidade sem calçadas. Seria a solução para a embrulhada do trânsito, que fluiria melhor com mais pistas, e por tabela aumenta o espaço dos pedestres, que agora tem quadras inteiras de espaço urbanizado para andar e uma vista bonita de doer.

Claro que nem todos os bairros do Rio são como Copacabana, nos outros os prédios variam de altura o tempo todo, mas eu acho que os percursos acidentados dariam mais personalidade ao cenário. A paisagem ganha escadas, pontes, ladeiras, túneis, pessoas passando por cima e por baixo, uma dimensão a mais para fazer surpresas a cada virada de esquina. É a chance de a cidade mudar de cara completamente sem precisar ser bombardeada.

Na cobertura, gente saudável passeando sem amarras. No térreo, a auto-estrada voando baixo. Um isolado do outro. Tem uma metáfora escondida aí. O pedestre que, para pegar o carro, tem que descer andares, degraus, patamares, cair de nível, lamber o chão, comer poeira, que vê a luz do sol se acinzentando conforme o elevador baixa, acaba que desperta para a desimportância que o automóvel merece. Ninguém seria forçado a andar por cima dos prédios, mas aposto que iriam todos preferir. Os únicos que não poderiam subir seriam as pessoas que levam seus cachorros para fazer cocô e os skatistas. Com tão poucos fregueses, as lojas se mudariam também. Cada prédio poderia alugar 30% de seu terraço para o comércio, 50% ficaria livre para a circulação, e 20% seria ocupado pelo verde. Todas as lojas poderiam se mudar, com exceção, evidentemente, das lojas de carro, autopeças e dos mecânicos.

Alguns outros conceitos precisariam ser alterados:

- As portarias agora são acessadas pelo terraço. Ficam no penúltimo andar, dividindo espaço com o estoque das lojas e as raízes das plantas.

- Pontes suspensas por cima das ruas ligariam prédios de alturas semelhantes. Nelas se permitiria a atividade de artistas de rua e ambulantes.

- Prédios muito mais altos que seus vizinhos seriam obrigados a ocupar seus terraços com parques públicos acessados por elevadores internos.

- Regra de comportamento vital: cuspir no cocoruto dos carecas lá embaixo vira crime inafiançável.

- Todos os andares térreos de todos os edifícios seriam abertos e usados como garagens públicas gratuitas, pontos de ônibus e táxi, e talvez ciclovias.

Na verdade, não sei bem ainda o que fazer com as bicicletas. Os ciclistas também merecem a vista e o espaço do alto dos edifícios, mas o desnível entre os terraços atrapalha demais a locomoção. Mais prejudicados do que eles, só os deficientes físicos. Claro que toda escada poderia vir junto a uma rampa ou um ascensor para cadeira de rodas, mas haja paciência para topar com um desses a cada quinze metros.

Outro problema seria o aumento dos roubos a moradia. Para o ladrão fica fácil descer dois andares escalando a parede, dar um chute na janela e entrar num apartamento. Mas se fosse pego no flagra, ele poderia tentar escapar por cima dos prédios e a perseguição daria um filme de ação excelente. Mais problemas: pessoas com vertigem. Elas também ficariam prejudicadas. E não sei se a poluição lá em cima é mais tóxica, ou se o ar é mais rarefeito. Ou se daria pra integrar as antenas de TV a cabo na paisagem, ou se os pombos e as gaivotas não se revoltariam com a ocupação do deserto que antes era todo deles e usariam das armas que dispõem para expulsar os visitantes (o que me leva a pensar num aumento do número de lavanderias). Mas mesmo que houvesse vários outros problemas que não soubemos ainda prever, raios, chuva ácida, suicídios, não tem tanta importância, porque a proposta também não pode ser aplicada em toda a cidade. Em alguns lugares, é desejável que as pessoas caminhem no chão, como o Aterro, o calçadão da praia, a Lagoa e a própria praia. Há bairros menos densos, sem prédios tão colados uns nos outros, há bairros onde andar por cima das casas seria estranho, como Santa Teresa, e na Barra os caminhos seriam feitos mais de pontes que de terraços. Nosso escopo acaba limitado a setores da Zona Sul, ao Centro e à Tijuca, mas mesmo com tantos contratempos e um alcance tão pequeno, a idéia me cativou o suficiente para desenhar uma possível cena de pedestres andando no topo dos edifícios.

A grande lição que tirei desse projeto é que tá na hora de voltar a treinar o desenho.

8 Comments:

At 5:57 PM, outubro 19, 2006, Anonymous Daniel said...

Idéia tão engraçada quanto idiota. E eu acho q isso é bom. Eu sou um profundo admirador das idéias idiotas, principalmente em brainstormings. Existem 3 ptos positivos nas idéias idiotas: 1)geram risos e o bom humor aumenta a criatividade; 2) podem, eventualmente, levar a uma idéia boa; 3) liberam o cérebro pra processar idéias melhores qdo são exteriorizadas.
E, neste momento de ócio e relativo tédio pelo qual passo aqui no estágio, esse tipo de leitura é particularmente útil. Deixa meu cérebro ocupado com futilidades e evita idéias suicidas.
Tb me lembra q eu tenho inveja d vc por vc ter um blog e conseguir postar coisas interessantes/engraçadas com uma relativa freqüência. Eu tentei ter um blog há alguns meses, mas, como fogo de palha, acabei só escrevendo um post e largando de lado. Resultado: o Blogger fagocitou meu blog, que voltou a ser apenas um punhado de bits no éter digital. E assim, o único post q fiz na vida, o meu único filho intelectual, feito à imagem e semelhança do pai, uma pérola da blogosfera nacional, capaz de deixar de quatro blogueiros importantes como José Dirceu e Bruna Surfistinha (ok, tem um trocadilho sim), perdeu-se.
O que resta é recolher-me a minha incompetência e continuar escrevendo longos comentários nos posts dos outros.

Abração!

Daniel Veloso
 

At 10:24 AM, outubro 20, 2006, Anonymous paula said...

é, eu nao gostei dessa idéia aí nao. imagina no verão aquele sol de meio-dia de rachar, e vc tendo que andar por cima dos prédios sem nenhuma sombrinha, um horror. e convenhamos que os problemas de trânsito aqui têm mais a ver com a (falta de) educação dos motoristas do que com o tamanho da pista.

tem outra coisa tb: a quantidade de pessoas caindo acidentalmente lá de cima ia ser mt grande - bêbados, retardados sem coordenação motora (categoria na qual eu me encaixo) e criancinhas sem noção que se jogam por aí.

eu tinha mais pra falar, mas estou com sono e pregui de escrever. :P

bjs moço
 

At 11:07 AM, outubro 20, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

Daniel, eu não acho a idéia idiota (na verdade, ela não é sequer original, apenas uma radicalização sacana de um conceito que li num livro da biblioteca da faculdade (é, acho que foi o único dividendo que a pesquisa pro projeto final me rendeu até agora )) mas se o fato de você considerá-la idiota o afasta das tendências suicidas, não vou te reprimir. Uma boa idéia para suprir a sua falta de um blog próprio é escrever posts dentro de posts em blogs alheios, como o que fez agora. Se forem tão geniais quanto esse, você pode criar uma nova forma de comunicação e virar uma lenda na internet. Abraço!

Pulinha, nada grave: árvores e cercas altas. Beijo!

Acho que as críticas de vocês foram por causa da ilustração ruim, se eu tivesse desenhado melhor, teriam gostado da idéia.
 

At 11:10 AM, outubro 20, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

Acho que esse meu comentário aí em cima foi um daqueles raros casos de parêntese dentro do parêntese.
 

At 4:32 PM, outubro 20, 2006, Anonymous danie veloso said...

Cara, sobre o seu desenho, vou usar dos arcanos conhecimentos homossexuais aprendidos na Esdi: não acho q o desenho esteja ruim não. Acho até q vc usou bem a técnica q o Amador ensinou sobre reduzir a imagem para esconder os defeitos. Realmente, considerando o tamanho da imagem do post, e a escala q eu acredito q vc tenha usado para desenhar, é provável q o desenho não estivesse mesmo lá essas coisas. Mas, de um modo geral, pela imagem q eu vejo aqui, parece legal. O q acho q me incomoda um pouco é o azul usado no prédio e no telhado da casinha ao fundo e o laranja das paredes dela. Acho q eles fogem da paleta do resto do desenho.
(Tá aí um típico comentário esdiano do tipo "esquisitão")

Qto à história de virar uma lenda na internet, fico feliz por vc ter gostado do meu post, mas acho q não é isso q vai me fazer virar uma lenda não. Mta bondade sua. No fundo no fundo eu sei q eu só vou virar uma lenda qdo eu tomar coragem e investir minha criatividade para vender pornografia na internet. Já estou até pensando numa modelo pra lançar; acho q vai c chamar "Renata Skatistinha"...

E um dia, qdo eu for ao Jô contar como eu fiquei milionário da noite para o dia revolucionando o mercado pornográfico, eu vou agradecer ao Washington por ter aberto meus olhos e me mostrado q eu não levava jeito para designer.
 

At 4:03 PM, outubro 21, 2006, Anonymous paula said...

ah, eu gostei do desenho... mas acho que a minha opinião conta muito, já que não sei rabiscar nem boneco palitinho.
 

At 9:59 PM, outubro 24, 2006, Anonymous Douglas said...

hehehehe

me amarro no rumo Simpson que seus contos sempre tomam.

Além disso, a idéia de uma cidade em cima de uma cidade parece divertida, criando a cidade baixa e a cidade alta carioca =]

Pena que os velhinhos não iam gostar muito de ter seus íntimos prédios violados com crianças felizes correndo em seus terraços.

Se bem que os síndicos iam se amarrar na idéia de alugar o espaço em cima dos prédios...
 

At 1:58 PM, outubro 30, 2006, Anonymous Luyza said...

adorei a ideia. quems abe assim copacabana vire algo habitavel ou andavel. to curiosa pra saber qual eh o seu projeto final.
bjos
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
Rio de Janeiro

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