domingo, outubro 01, 2006

Rua

O que a sua rua tem a lhe oferecer? Pense num mundo hipotético em que só se pudesse usufruir dos serviços disponíveis na rua onde você mora. Em que situação você estaria? Seria essa pessoa bem-sucedida e culta que é hoje, que lê o Desembolog toda semana, ou seria um indigente?

Há uma escola na sua rua? Até que nível de educação ela te permite chegar? Há um correio, se quiser mandar uma carta? E banco, se precisar pagar uma conta? Como ficam aqueles pequenos luxos, aquele jornal fresco comprado na banca da esquina (há uma banca na sua esquina?) pra acompanhar a xícara de café com leite de domingo; continuará existindo ou tem que ser cortado da rotina?

Pra mim o prejuízo foi enorme ao me mudar de endereço. A rua Pompeu Loureiro teria me dado o ensino médio e fundamental no colégio Barilan. Já uma infância na rua Paula Freitas me manteria analfabeto. O colégio Barilan é uma escola judaica. Se eu acabasse convertido ao judaísmo pela educação recebida na Pompeu Loureiro, seria bom não ficar muito ortodoxo, já que só se vende comida kosher na Paula Freitas. Mas tirando esse pequeno risco, eu teria uma juventude muito mauricinha e saudável na minha rua antiga. Depois de nascer sadio e rosado num hospital privado e de boa reputação como o São Lucas, eu seria levado pra casa e já fraldinha poderia sair para brincar na praça em frente ao corte de Cantagalo, com balanço, escorrega, trepa-trepa e gangorra. Aos três anos, começaria a fazer aulas de natação no Olympico Club, onde ganharia uma medalha de bronze ao atravessar a piscina na terceira posição, nadando com uma prancha de isopor escondida debaixo da barriga.

Na Paula Freitas, eu aprenderia a nadar pegando jacaré na praia, e de lá olharia debochado para os alunos voltando da escola municipal da rua República do Peru, vizinha à minha. Terminar a infância sem saber ler e escrever não teria sido nenhum peso para um jovem sem perspectivas como eu, que desenvolveu uma capacidade extraordinária de inferir o resultado dos jogos do Vasco só pela foto da primeira página do jornal. Na Paula Freitas, eu nasci no balcão da boutique feminina Maiôs Rio de Janeiro, e embrulhado em uma canga de praia cuja conta ficou pendurada por anos. Completados dezoito deles, sem nunca ter nem ingressado no primário, minha família me expulsou de casa.

Durante dezoito verões na Pompeu Loureiro, eu pude usufruir confortavelmente de muitos serviços como:

- um curso Brasas, onde tirei meu diploma de inglês avançado;
- um supermercado Disco, depois Paes Mendonça, depois Pão de Açúcar, onde eram feitas as compras de mês da família;
- a padaria e confeitaria Rosabela, para comprar o café com leite que acompanha o jornal fresco de domingo;
- uma banca de jornal;
- um leiloeiro Roberto Haddad;
- a embaixada da Ucrânia.

Além disso, na minha antiga rua eu tive acesso ao mais completo sistema de saúde, que incluía, além do hospital São Lucas:

- a clínica de saúde Pompeu Loureiro;
- a drogaria Pompeu Loureiro;
- um corpo de bombeiros, pra qualquer emergência.

Na Paula Freitas, depois de posto na rua, eu arranjei um emprego na lavanderia Lav Center, fazendo atendimento no balcão. O trabalho era mal pago, mas os turistas hospedados no Trocadero Othon Hotel e no Royalty Copacabana Hotel eram ricos, e esqueciam coisas nos bolsos das roupas que deixavam comigo, ajudando na remuneração final. Entre os itens furtados ao longo de dezenove meses estão:

- 2.450 reais;
- 975 dólares;
- 858, 25 euros;
- dois relógios, um Swatch e um Casio;
- um pente de marfim;
- uma caneta MontBlanc;
- um iPod.
- pesos argentinos, chilenos, paraguaios, uruguaios, colombianos, venezuelanos, costarriquenhos e mexicanos; dólares canadenses e australianos; libras esterlinas, francos suíços, ienes, forints húngaros, liras turcas, rúpias, rublos e yuans, que somados e convertidos chegam a 3.000 reais. Com exceção do forint húngaro, consegui trocar todo o dinheiro nas lojas da rua, embora a taxas mais desfavoráveis que as praticadas em casas de câmbio regulares.

Alguns clientes voltavam para reclamar, mas eu nunca, nunca devolvia nada. O dono do iPod (não era pelo aparelho, era pelas músicas) pulou o balcão e encontrou-o no meu bolso. Eu disse que não se podia provar que era o dele, mas quando ele ligou, o aparelhinho se iluminou e apareceu na tela: Buenos Días, Gonzalez! Tomei um soco que quebrou meu nariz, e não fosse o dono da lavanderia aparecer, ele talvez tivesse me matado. Fui demitido no fim do dia.

Na Pompeu Loureiro, comprei meu primeiro computador na loja de informática DocMicro, e assim que terminei o ensino médio, entrei para o curso de webdesign do Senac realizar meu sonho de ser um profissional de criação.

Houve alguns problemas relativos à escolha do design como área de trabalho, como a ausência de papelarias na Pompeu Loureiro, o que me exasperara a princípio, até perceber que a porta do almoxarifado do Senac não ficava trancada. Todo mês eu voltava na condição de ex-aluno nostálgico para cumprimentar os professores e, um pouco de cada vez, surrupiava o material. Freqüentava o Senac também para cortar o cabelo com as alunas de estética.

Fosse eu um webdesigner na Paula Freitas, seria cabeludo ou com várias falhas no corte, mas não precisaria me envolver em pequenos furtos de material de escritório. Havia uma papelaria na rua, a Casa da Bíblia, que me acolheu quando meu dinheiro acumulado na lavanderia acabou. Eu passara três meses seguidos almoçando no Galeto Viva Flor e jantando no Golden Cafe, comprando roupas masculinas na Pool e emendando madrugadas no Mud Bug Sports Bar. Não digo que não procurei emprego. Fiz investidas esporádicas em lojas como a Colchões Ortobom, a Drogasmil e a Só Lustres, mas todas recusaram meu pleito ao ver que, aos vinte anos de idade, eu não aprendera mais do que assinar o nome. Acabei me acanhando de tentar uma vaga em outros lugares, com medo de mais negativas. Cheguei a voltar à Sonoleve, mas como cliente. Lá comprei o colchão que estendia na calçada, cansado das caixas de papelão.

A proprietária caridosa da papelaria me notou uma semana depois que as minhas economias acabaram, e, apiedada ao me ver disputando os grãos de milho secos jogados aos pombos, me deixou estender o colchão dentro de sua loja, e me ensinou o ofício de xerocador.

Na Pompeu Loureiro os negócios corriam muito bem. Eu tinha um computador, eu tinha material de escritório roubado, e tinha o conhecimento técnico e artístico. Todas as condições para ser o webdesigner mais promissor da rua. Clientes nunca faltaram, dos já citados hospital São Lucas e clínica Pompeu Loureiro até o hotel Four Plus Copacabana One. E diagramava também a programação de eventos do Olympico Club, aquele onde vinte anos atrás eu trapaceara para tirar o terceiro lugar na natação.

Comecei a enriquecer. Quando a estação de Cantagalo do metrô foi inaugurada, no fim de 2006, fui contratado para projetar a sinalização interna. Eu ampliava cada dia mais a minha área de atuação, já que a competição estava quase extinta, e minha presença no mercado só fazia aumentar. Logo estava atuando em todos os nichos do design, da arquitetura e da propaganda. Websites, marcas, periódicos, embalagens, campanhas publicitárias e projetos arquitetônicos, tudo tinha o meu dedo. Minha pequena empresa caseira logo precisou de mais funcionários, e tive que comprar outros quartos, apartamentos e andares para acomodar toda a gente. Em pouco tempo, eu tinha virado um conglomerado.

O metrô me trouxe clientes de outras ruas, multiplicando minha clientela potencial. Mas fiquei com medo de expandir ainda mais o escritório, para que o funcionamento clandestino da empresa em área residencial não fosse notado pela fiscalização. Por isso quanto mais aumentava a demanda, mais eu a repassava para os funcionários, sem fazer mais contratações nem aumentar-lhes o salário. Com a eliminação dos concorrentes da rua, eu ganhara esse poder de barganha. Aplicava todo o lucro da empresa na bolsa de valores, e em cinco anos me tornei milionário, remunerando mal meus contratados e prestando serviços de baixa qualidade.

Mesmo não tendo recebido educação apropriada na Paula Freitas, eu era igualmente talentoso no campo das artes visuais. Na papelaria, com uma máquina de xerox antiga e sem manutenção, conseguia cópias excelentes, muito parecidas com os originais. Dois clientes voltaram entusiasmados, dizendo que a xerox de suas carteiras de motorista foram suficientes para passar por uma blitz policial, que as tomou por originais. Isso me deu uma idéia.

Muitos dos fregueses da papelaria eram conhecidos da dona, amigos de longa data, evangélicos, e a confiança que depositavam nela foi sem nenhum esforço transferida para mim. Eles me davam suas carteiras, cheias, e pediam que eu xerocasse a identidade e o título de eleitor, enquanto davam uma volta. Comecei a fazer montagens com os documentos, colocando minha foto 3x4 por cima da deles. Em pouco tempo, eu tinha um arsenal de identidades diferentes que jogavam sob os ombros de outros as responsabilidades das compras feitas com seus cartões de crédito brevemente furtados.

Era um esquema burro, que não me servia de nada. Eu tinha a caridade gratuita da proprietária da papelaria, que me garantia comida e abrigo. Além disso, com meu salário de xerocador, podia comprar tudo que as poucas possibilidades da rua me permitiam, de colchões a comida kosher. Eu fazia pelo simples prazer da contravenção, e dada a fragilidade do esquema e a falta de um álibi consistente, não demorou muito pra que me desmascarassem. Fui demitido e expulso da Casa da Bíblia, e escorraçado na calçada pelas minhas vítimas.

Passei a morar na rua, definitivamente.

Essa história não tem outras reviravoltas. Eu morrerei na mendicância daqui a alguns anos na Paula Freitas, assim como terei uma longa vida de empresário bem sucedido na Pompeu Loureiro. Em ambos os casos, graças ao talento para as artes gráficas e ao maucaratismo. Sua rua pode determinar sua sorte, mas não pode mudar sua personalidade.

5 Comments:

At 12:57 AM, outubro 02, 2006, Anonymous Lili said...

Mentira. Se você tivesse se tornado judeu não teria ido à falência. Já viu judeu pobre (pelo menos no Brasil)? ;)

E se dependesse das ruas que eu morei... no máximo teria tido uma boa educação na atual, onde depois trabalharia com algo relacionado a som nos Estúdios Mega. Mas morreria de fome - a não ser que comprasse biscoitos no sinal. As outras ruas nem valem a pena.

Bjo.
 

At 9:27 PM, outubro 04, 2006, Anonymous camila, deine liebe schwester =D said...

o que me impressionou é que você não nasceu na casa de saúde são josé!
 

At 2:04 PM, dezembro 31, 2006, Anonymous Anônimo said...

Pouca sorte a sua, ao conhecer nossa Itaboraí, berço da Nação Brasileira, quando os jesuítas catequisaram os Moromonrones.
Terra-mãe de vultos ilustres, como João Caetano e Joaquim Manuel de Mcedo, a cidade tem o primeiro teatro do Brasil, o primeiro túvel ferroviário do País, fazendas seculares, e gente muito decente que não foge do serviço militar nem negocia peças em desmanhces.
Obrigado por não ter gostado, espero que nunca volte com suas artimanhas por aqui.
 

At 12:56 PM, fevereiro 18, 2007, Anonymous Anônimo said...

Moro na Rua Pompeu Loureiro há três semanas e torço fervorosamente para que a correlação estabelecida por você ajude a alavancar minha carreira, ou talvez a da minha filha ,que nascerá em dois meses.
PS:Maniqueísmos à parte, mas, se mau-caratismo for pré requisito, eu tô fudido!
 

At 8:49 PM, março 06, 2007, Blogger Rodrigo Rego said...

É pre-requisito sim, mas relaxa, sua filha de repente ainda tem chances. =)

abs!
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
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