quarta-feira, novembro 23, 2005

Reconstruindo Varsovia

Polônia, 1939. As tropas alemãs atacam de um lado, e num movimento sincronizado, as soviéticas invadem o outro, desencadeando a Segunda Guerra. Varsóvia é bombardeada pela Luftwaffe, e depois da traição de Hitler, liquidada por Stalin. Espalham-se escombros pela outrora radiante capital polaca, do castelo sobra só uma coluna, do restante é melhor demolir o que ficou em pé e começar de novo do que ficar brincando de quebra-cabeça com as mil peças dos destroços.

E é o que fazem os poloneses. Baseando-se em fotografias antigas, pinturas, memórias, e as poucas plantas urbanísticas restantes, refazem rua a rua a paisagem de Varsóvia antes da guerra. É claro que o objetivo da reconstrução nunca foi promoção turística, fora do dicionário dos países da cortina de ferro. Mas pra quem chega lá agora e vê tudo limpinho coloridinho, é como se fosse.

Pensem em Walt Disney, ou seu secretário para assuntos de parques temáticos, incumbido da função. Ele contrata um urbanista, um arquiteto, um paisagista, um engenheiro eletricista, um agitador cultural e um sanitarista. Essa equipe jovem, multitalentosa, sedenta em escancarar ao mundo suas qualidades artísticas e projetuais, é a responsável pelo resgate da magia da vida no século XVIII, uma Varsóvia intocada não só pelos bombardeios como pelas mazelas da modernidade.

O urbanista contratado é um jovem prodígio de 26 anos. Ele estudou a fundo as plantas restantes de Varsóvia, mas devido ao seu péssimo estado de conservação e à inexistência de datação em cada uma, foi incapaz de reconstituir com perfeição o mapa da cidade. As diversas lacunas, entretanto, preencheu com arroubos de genialidade, misturando vielas para confundir o visitante, criando planos tridimensionais, com pequenas pontes, becos, ou ruas estreitas desembocando em espaçosas praças de mercado, regidas por majestosas catedrais.

As catedrais, e toda a geografia múltipla de casas em diferentes estilos, como cabe a uma cidade que viveu todas as épocas em igual esplendor, couberam ao arquiteto. Igualmente novo e ainda mais ousado, ele fora selecionado entre outros cem, numa concorrência que demandava a apresentação de um castelo, uma catedral, uma villa em estilo neoclássico e um conjunto de quatro casas medievais, todos com fachada e planta baixa. Seu projeto não foi o único a incluir rampas de acesso para deficientes às catacumbas da igreja, nem elevadores para cadeiras de rodas na torre do palácio e traduções em braille para as tabuletas do ferreiro e carpinteiro, ponto na época ainda polêmico. Mas o fez com tal discrição, camuflando-os tão bem no ambiente medieval, que o júri não teve dúvidas em selecioná-lo.

O paisagista era de uma vertente mais conservadora, conveniente ao tipo de empreitada. Salpicou as ruelas com bancos e lampiões a gás art nouveau, coloriu as praças com mil lírios, gerânios, rosas, cravos, pintou as casas em cores harmônicas, criando na parte ocidental um setor em tons azulados, na sul, perto do castelo, outro com tons apastelados e na região na margem do rio, um setor em tons de terra, para fazer o contraste. Na praça central deixou que os tons fluíssem livremente, espalhando um catálogo de tintas em frente a cada casa e pintando-a arbitrariamente com a cor que sorteasse, para resultados descritos como espetaculares.

O engenheiro eletricista era um técnico. Sua insistência em substutuir os lampiões por postes de luz elétrica ligados por uma fiação que macularia o ambiente proposto não caiu bem entre os outros membros do grupo. O paisagista, nascido num bairro pobre de Nova York, pagou do próprio salário para que ele fosse assassinado.

O agitador cultural mergulhou fundo na cultura polonesa, da Idade Média ao Iluminismo. Sua dupla formação – era também graduado em História pela universidade de Yale – certamente fora decisiva no processo de seleção. Outro fator relevante foi o sobrenome: Disney. A sombra do padrinho tornava suas idéias mais palatáveis a seus superiores, mas ele, consciente da situação, tinha excessiva cautela em propor soluções extravagantes, com medo de que fossem aceitas apenas por causa da influência temerária do tio. Por isso não foi além dos restaurantes em ambiente rústico servindo comida medieval, polonesas com saias e chapéus típicos fazendo as vezes de guias turísticas, passeios de charrete e artistas de rua: seresteiros, homens estátua, mímicos, violinistas, companhias de teatro, esgrimistas, corais, todos munidos de recipientes para a coleta de moedas.

A maior conquista de engenharia de todo o projeto foi o sistema subterrâneo de recolhimento de donativos. Ele corria invisível por debaixo dos paralelepípedos, ligando as cumbucas sem fundo dos artistas de rua a um cofre central nos porões do castelo. O sistema impedia que os artistas, contratados pelo governo com salário fixo, furtassem parte de seus ganhos diários em proveito próprio, e foi uma das diversas atribuições extras que exerceu o último integrante da equipe, o sanitarista, cuja inventividade em tudo que concerne a tubulações foi um achado por parte dos empreiteiros. Sua tarefa quando contratado era somente projetar o sistema de drenagem das ruas da nova velha Varsóvia, mas trabalhava com tanta paixão que acabou se dedicando, sem nem mesmo se lembrar de cobrar, a várias outras tarefas, incluindo uma boa idéia para a condução da fiação elétrica dos postes por baixo da terra, que estava em vias de concluir quando o engenheiro eletricista foi assassinado.

Os turistas, evidentemente, não ficam a par de nenhum desses pormenores. O que lhes é contado em pôsteres expostos na praça central se resume a exaltar vagamente o heróico esforço de restauração, atribuindo o mérito não à Walt Disney Inc. e sua equipe prodigiosa, mas aos moradores da cidade, que no máximo trabalharam como pedreiros. Ao entrarem na ilha medieval reconstruída, os visitantes se sentem tão imersos em alta cultura, tão transportados a um outro mundo, que nem percebem estarem patrocinando uma encenação extemporânea.

Foi assim nos primeiros dois meses, até cair um pedaço de bosta no ombro de uma turista coreana. A explicação para tal despropósito, só podia haver uma: o engenheiro eletricista sobrevivera ao atentado. Os marginais novaiorquinos contratados pelo paisagista, ignorando a geografia polonesa, não sabiam que o rio Vistula era raso, tão raso que um homem de um metro e noventa, atirado de um penhasco amarrado a uma corrente de dois metros e meio com um peso na ponta, conseguia ficar, esticando o pescoço, com a boca e o nariz pra fora d’água, sobrevivendo por dois dias até que alguém o notasse. Ele espertamente se manteve escondido, tramando em segredo seu plano de vingança: reuniu secretamente sobreviventes de guetos e campos de concentração das redondezas, e incitou-os a vir morar nas novas residências construídas no coração de Varsóvia.

A massa de desabrigados disputou a tapa a oferta, e se mudou em conjunto coordenada pelo engenheiro numa madrugada de alta temporada turística. A boa impressão com as belas fachadas foi por água abaixo na primeira vistoria dos interiores – os apartamentos não possuíam nenhuma estrutura, não tinham móveis, divisão de cômodos, cozinha, nem sequer banheiro, forçando os novos moradores a esvaziar seus penicos pela janela. A revitalização do antigo costume fez várias vítimas entre os turistas naquela tarde, e aliada à forte chuva e à sabotagem do sistema de escoamento projetado pelo sanitarista fizeram espalhar doenças pelo centro histórico, incluindo algumas erradicadas já há algum tempo. Além disso, os desabrigados que não conseguiram se instalar em uma das casas começaram a emboscar os visitantes com as armas que tinham, paus e pedras, a escravidão dos turistas negros foi autorizada e algumas das mais belas turistas orientais e árabes foram tomadas como concubinas do rei. Vários outros turistas foram aleatoriamente acusados de hereges e queimados numa inquisição improvisada, e quando alguns deles começaram a achar que a ambientação estava passando dos limites e tentaram sair da cidade, descobriram que o centro histórico tinha sido cercado pelo exército otomano.

12 Comments:

At 11:59 AM, novembro 23, 2005, Blogger Alexandre said...

gosto muito do meu amigo rodrigo, mas as vezes ele da umas piradas. enfim, gostei dessa varsovia ai, mas vou ter que ir pra saber se ela sequer tem centro historico
 

At 7:27 PM, novembro 23, 2005, Anonymous Lili said...

ainda não li o post, juro que depois eu leio! ;) Vim aqui, na verdade, responder seu comentário lá no Rivotril.
Quanto às nossas listas de filmes, é verdade, só se cruzam em Antes do Pôr-do-Sol. Quanto ao Antes do Amanhecer, vou te confessar que não vou muito, muito fã, não. Acho uma dupla bacana, mas o 2° pra mim é o que há. A profundidade dos diálogos é espetacular, a produção é ótima. Merece sozinho entrar na lista.
Quanto à lista de músicas... ela não é a lista das músicas que eu mais gosto e sim da trilha sonora da minha vida. Músicas que marcaram, sabe? Eu ainda tou tentando fazer a lista das 10 melhores músicas, mas tá duro...
Gostei da lista dos pops. Tem coisa muito boa ali! Mas eu, com certeza, botaria a Madonna no topo. Porque Beatles e Rolling Stones entrariam numa lista de Rock (na qual eu teria um páreo duro pela liderança entre Elvis e Queen).
Vou fazer a minha de pop e a minha de rock e depois te mando.
Quais listas mais vc anda arquitentando?
Bjo.
 

At 11:17 PM, novembro 23, 2005, Anonymous Lili said...

Agora tá lido.
Rodrigo, tenho medo da sua imaginação! :P
Bjo.
 

At 10:49 AM, novembro 24, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

Tem centro historico sim, como toda cidade europeia, preservadinho, bonitinho. E como a imensa maioria das cidades européias, a parte bonita é só uma parte, as vezes minima (como é o caso) as vezes um pouco maior, e o resto da cidade é bem mais feia. As vezes a diferença é gritante (nao é o caso), as vezes é. Mas o fato é que só lá eu comecei a ter a sensacao de que essas cidades só sao preservadas pros turistas passearem, porque ninguém realmente mora e trabalha lá dentro, a menos que tenha um negócio voltado aos turistas.

Só duas cidades que eu visitei me pareceram bonitas por inteiro. Uma, Alexandre, é onde vc mora, a outra é Veneza. Cagão.

E voltando ao papo das listas (um assunto interminável!): Lili, sua lista de músicas da vida me inspirou a fazer um top ten músicas que eu gostava quando era pequenininho. Segue:

1- Jesus não tem dentes no país dos banguelas (titãs) 2- Marylou (ultraje) 3- California Dreamin' (mamas and papas) 4- A mosca (Raul Seixas) 5- Manuel (Ed Motta) 6- Porrada (titãs) 7- Veraneio Vascaína (capital) 8- Maior abandonado (barão) 9- Oh Susana 10- Assaltaram a gramática (paralamas)
 

At 11:43 PM, novembro 24, 2005, Anonymous Bárbara said...

aahhnnn... Oh Suzana me lembra criancinhas aprendendo a tocar flauta doce na aula de música... Primeiro Asa Branca, depois Oh Suzana.

Quer dizer que Veneza é tudo isso mesmo? Sempre tive uma certa impressão de que era propaganda enganosa... Tive medo de gastar um granão e me decepcionar lá.

Já Paris... ai, ai... certamente no meu top 3. Vou voltar lá dia 14 de fevereiro de 2006... ai, ai... já tô contando os minutos...

Aliás, vc e o Ricardo vão estar em Berlin no final de fevereiro? Eu vou lá (aí). Me digam aí os planos de vcs pra esse período, bitte

bjs
 

At 12:49 PM, novembro 25, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

po, sério que vc vem pra berlim? de bobeira, fazer um curso, o que? vamos nos encontrar entao! Eu (pretendo) estar aqui entre 24 e 28 do fim de fevereiro, só. 28 a gente tem que ir, acaba o visto, e antes disso queria fazer uma viagem de encerramento. O ricrdo acho que é mais ou menos o mesmo esquema, mas a gente nao conversou muito ainda. Claro que isso é tudo no campo das hipoteses, nao marcamos passagem de volta nem nada. bjo!
 

At 6:02 PM, novembro 25, 2005, Anonymous Barbara said...

Legal! Qdo vcs souberem dos seus planos pra essa epoca, vcs me mandam um email? Ia ser legal rever a cidade com voces. Eu tenho um voo de Berlin pra Stuttgart dia 27 de fevereiro, entao eh ateh esse dia que eu vou ficar.

(maldito teclado desconfigurado do labinfo da esdi...)

O dia que eu chego em Berlin eu nao sei, pq vai depender do dinheiro que eu vou ter pra gastar por aih. Mas quero estar aih pro aniversario do Rico, claro. Festao! Festao! hehe

bjs
 

At 6:43 PM, novembro 27, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

tá bom... mas tá tudo bem nublado ainda.. tenho medo de te responder meio em cima.
 

At 2:59 PM, novembro 28, 2005, Anonymous Lili said...

Adorei sua lista de músicas de infância!
Acho que vou aderir... tem tantas marcantes!
Bjo.
 

At 5:00 PM, novembro 28, 2005, Anonymous zuniga said...

aloo pupilo mais uma tentativa de me comunicar bei blog zuniga
 

At 6:22 PM, novembro 28, 2005, Anonymous zuñiga said...

caro pupilo Rodrigo mandei o coment anterior para saber se entrava e descobri que o problema éno meu pc de casa que se recusa a enviar o meu comentário. Escrevi que a sua novela varsoviana me reportou a um filme do Andrej Wajda que conta a saga de Janusz Korsczak médico e educador que optou por acompanhar as crianças do seu orfanato, que foram transportadas pelos nazistas para o Ghetto de Varsovia, mais tarde se vc quizer mando sites p vc

Grande abraço do Zúñiga
 

At 10:18 PM, novembro 28, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

OI Zuniga! Já tinha respondido ao seu email, acho que vc não recebeu, então agora respondi de novo pra todos os contatos que vc me deu. Me diz se vc recebeu ou não!

Gostei dos nomes do diretor e do personagem do filme. Alguns nomes eslavos são completamente incompreensíveis, mas é engraçado como se vc tenta inventar um, não consegue que ele realmente pareça um nome autêntico, e por mais ininteligível que fique, dá pra saber que é inventado por alguém que não conhece a língua. Vou guardar esses aí pra futuros personagens poloneses =)

abração
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

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