sexta-feira, novembro 11, 2005

Sobre o futuro negro deste blog

Milhares de cartas chegam aqui em casa todos os dias desde aquele post das listas. Todas indignadas. Me chamam de incongruente e exibido, a maioria apontando a não publicação da lista dos dez melhores livros como o auge da falta de lógica. Teria eu dito – explicitamente, garantem – que levo só três listas a sério: a de músicas, a de filmes, ambas já divulgadas, e a de livros. Razões para a omissão da última no post retrasado variaram conforme a criatividade das cartas, do papo furado de pseudointelectual descartando pras garotinhas trunfos que não tenho, à cumplicidade num esquema internacional ecofanático tramando a reciclotransformação de todos os livros de volta em árvores.

Saindo do conceito de dez mais e passando ao de náufrago em ilha deserta, o único livro que eu não deixaria que virasse de volta palmeira pra me dar cocos e proteger da insolação é o Se um viajante numa noite de inverno. Já o mencionei antes, fala de um leitor que começa a ler uma história que para no meio, e quando vai buscar sua continuação descobre que está lendo outro, que também para no meio, e ao procurar o seu desfecho acaba lendo um terceiro, e assim por diante, os capítulos intercalando as primeiras páginas de cada livro com os cada vez mais bizarros percalços enfrentados para consegui-los.

Genial, mas também extremamente cerebral. Não é leitura de ônibus, não prende da primeira à última página. A primeira vez que li, parei no meio de tão chato, mas as outras duas fluíram sem dar tempo de respirar. Me motivou a encarar os autores de quem eu tinha medo. Alguns deles meu pai me traz hoje, Borges, Dostoievski, Tchekov, Joyce. Já Guerra e paz e os sete volumes de Em busca do tempo perdido ficam me esperando no Brasil.

Em alguns meses terei lido estes e mais alguns livros de conteúdo impenetrável. Começarei então a destilar essas influências no blog. O objetivo primeiro será tirar da leitura todo o seu prazer emocional. De início, sangrarei o sujeito das histórias, retirando-lhe qualquer traço de personalidade, restringindo-o a uma terceira pessoa sem nome do singular. Em seguida, darei flagrante prioridade a substantivos abstratos, abolirei descrições e ações que se passem fora da cabeça atormentada dos personagens, dificultando qualquer reconstrução mental que facilite ao leitor a visualização de uma cena. Verbos serão gradativamente reduzidos ao mínimo essencial, o narrador, se existir, aproveitará a menor fagulha para imergir em digressões, jogos estilísticos e palavreado denso.

O passo final será desprover a escrita de todo o seu conteúdo semântico, medida que se levada ao extremo implicará em textos formados por palavras desconexas, cuja seqüência de sons e ritmos por si só é suficiente para a apreciação estética. Ou não simplesmente palavras, mas sílabas, seqüências de letras inexistentes no Aurélio que juntas evoquem melodias irreproduzíveis, pássaros cantando, folhas farfalhando com a chuva fraca, tudo o que na natureza é muito melhor contemplado do que nas experimentações de um texto vanguardista.

No final, as vovós resmunguentas que espionam o tráfico e inventam conspirações acabam acertando. É, sou a favor de recuperar as Bélgicas e os campos de futebol perdidos na Amazônia com as páginas dos livros chatos do planeta, antes de sermos consumidos pela empolação literária que torna todo mundo que se mete a escrever tão pedante. Eu sou caso perdido; vocês, se cuidem.

6 Comments:

At 11:48 AM, novembro 12, 2005, Blogger Mauro said...

Procurei no google e imagino o que você descreveu sobre a bandeira de Antigua & Barbuda. Pra mim parece uma pessoa que passou o dia inteiro deitada de costas na praia, e assiste ao sol se pondo à sua frente por entre as pernas.
Se o blog ficar mesmo como você descreve, eu acho que paro de ler.
 

At 12:56 PM, novembro 12, 2005, Blogger Maninha ou Mamae said...

Di,
Time que est� ganhando nao se mexe. Acho que nao devemos rejeitar o novo, mas gosto da sua forma de escrever agora ; nao sei se gostarei da forma que vc est� descrevendo, com poucos verbos , palavreado denso e com palavras desconexas.
Acho que vc est� endoidando e inventando muito por a�...
bjs
 

At 12:58 PM, novembro 12, 2005, Anonymous Douglas said...

hehehe

Tirando o fato do livro q ele leu parecer ser MUITO chato, acho q o Rego iria ganhar um prêmio de Literatura Aleatório.

"A inconsistência de seu interior transborda de forma esplêndida sobre o vazio do papel. Uma jóia no meio do caos atual. Bravo!"
Juiz Aleatório - Random City

A tendência das pessoas gostarem de coisas sem sentido parece que cresceu muito atualmente. É o lance dos macaquinhos.
 

At 10:02 PM, novembro 13, 2005, Anonymous Anônimo said...

se juntar as incoerencias que vc pensa com um modo incoerente que vc pretende escrever ou vc vai ser cosiderado um maluco ou um filosofo...
quanto ao post anterior, vc realmente se superou... fico imaginando se alguem acreditou...rss
bjos
lety
 

At 4:15 PM, novembro 14, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

muito boa a frase! douglas, achou isso onde? E o livro é maneiro, pergunta pro diogao e pro guilherme.

os triangulos laterais da bandeira de antigua e barbuda sao justamente antigua de um lado e barbuda de outro. Mas a teoria das pernas é boa tb.
 

At 10:57 PM, novembro 15, 2005, Anonymous Douglas said...

Fui eu mesmo que escrevi, não entendi o porque do boa, mas vlw msm assim =]

Vou procurar então, ver se acho o livro por aqui.
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
Rio de Janeiro

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