quarta-feira, janeiro 18, 2006

Escola Superior de Design

Nhenhenhém é uma palavra tupi. Significa papo furado. Eu sei que meu histórico aqui nesse blog não me dá muita credibilidade, mas juro que é sério. Os portugueses chegaram com os espelhinhos e ninguém entendia patavina da língua truncada deles, por isso os índios começaram a repetir, nhenhenhém, nhenhenhém. Aí pegou, de tão apropriada que é foi incorporada, papo furado.

Acho que nenhuma outra palavra, qualquer que seja a língua, consegue uma liga tão boa entre significado e sonoridade. Porque no fundo as palavras são só isso mesmo, por mais que a gente decomponha e estude a etimologia da etimologia, a árvore genealógica dos australopitecos, no final os nomes são só uma verbalização pros objetos. Devem ter sido centenas de anos de evolução lingüística até que cada idioma definisse sua coleção de palavras, as que melhor traduzem o seu mundo em som. As línguas estão cheias de ótimos exemplos, nem precisa procurar muito.

No inglês mesmo tem um monte. Eles têm mania de nomear alguns verbos usando onomatopéias. Scratch é coçar, splash é cair na água, e ambos são barulhos facilmente associados às ações que definem. Às vezes eles sinalizam até diferenças de intensidade. Kiss pode ser um beijo mais tímido, já smack é um beijo estalado – embora nenhuma das duas se compare com o original em português, que precisa quase de uma mímica pra acertar a pronúncia.

A palavra que os ingleses acertaram mesmo foi design. Design significa projeto. Só. Meio vago, qualquer um pode projetar qualquer coisa. Um engenheiro projeta, um economista projeta, uma costureira projeta, então por que só um designer faz design, se design também é projeto?

Mas a sonoridade da palavra, aí que está o coelho. Design é um termo completamente desvinculado de seu significado original, tanta é a sua sonoridade. Quando alguém compra um produto qualquer porque tem design, digamos um ventilador ou uma batedeira, não é porque tem projeto. Projeto todos têm. Design vai além de sua etimologia, é nesse i falado como ai, muderno e metido a besta, e no arrojo da mistura impronunciável de g com n que reside a aura criada em torno da atividade.

Só os russos não gostavam muito da palavra design. Talvez por ser muito ousada para o seu sistema comunista viciado, talvez só por ser em inglês mesmo. Mandaram que as escolas de design da Alemanha Oriental se chamassem escolas de Industrielle Formgestaltung, que traduzido é algo como projeto de forma industrial. Semanticamente, é um nome até mais preciso, mas continua dando margem a milhares de outras coisas que não são design. No entanto, é no som que ele se perde por completo. Acaba associando a atividade do design, que é de criatividade, estética e experimentação, com o ambiente pesado de uma fábrica, gases tóxicos e engrenagens.

A forçação de barra bolchevique acabou sabe-se lá por quê passando pro espanhol, diseño industrial, e daí pro português, onde erraram de novo ao traduzir diseño, projeto, por desenho, que em castelhano se diria dibujo. E aí herdamos esse termo horroroso, desenho industrial, que ilude alguns vestibulandos que acham que vão poder desenhar quadrinhos, e espanta outros que pensam que têm que comprar capacete pra entrar em usina. Ainda bem que todo mundo agora fala design, que no final das contas ganhou na preferência popular. Falta vencer só na última frente de batalha, os nomes das faculdades, que teimam com a denominação antiga. Por isso que eu a partir de agora só digo que estudo na Esd.

14 Comments:

At 7:42 PM, janeiro 19, 2006, Anonymous Lili said...

Moço-Rodrigo,

você mexeu um ponto bem legal: fonética. Fonética é um troço muito legal. Nhenhenhém, mesmo sendo chatinha de digitar no teclado, tem uma fonética fantástica.

Sabe a palavra que eu mais gosto fonéticamente? Hemoglobina. (não parece que ela explode na boca, como aqueles chicletes que vinham num saquinho espacial quando a gente era criança?)

Mas é interessante mesmo ver como as línguas fonéticas são divertidas. O português é fonético, o grego é fonético, sabia? Se você aprender o alfabeto e as regras básicas dos encontros de letras você é capaz de ler qualquer coisa, só não vai saber o que está escrito, mas lê.

Bom, chega de ladainhas (que também é uma palavra fonéticamente interessante, não acha?).

Fico por aqui, deixo um ósculo pra você.
 

At 7:44 PM, janeiro 19, 2006, Anonymous Lili said...

Ah, e é verdade: Desenho Industrial é péssimo.
 

At 7:45 PM, janeiro 19, 2006, Anonymous Lili said...

Ah, e é verdade: Desenho Industrial é péssimo.
 

At 7:45 PM, janeiro 19, 2006, Anonymous Lili said...

Ah, e é verdade: Desenho Industrial é péssimo.
 

At 8:19 PM, janeiro 19, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

O Veríssimo que falava que a palavra mais feia do mundo é seborréia. Tem nomes que são feitos pra gente gorda: Rodolfo (olfo, olfo, vc faz boca cheia e depois quase cospe). Por isso que fofo é um adjetivo tão popular, ele em si já está cheio de tecido adiposo. Hemoglobina, nunca tinha pensado. Legal. Plec. Talvez se fosse hemoglopina fosse ainda melhor. Não sei.

Um ósculo não, isso parece uma azeitona envenenada. Um beijo, bem melhor!

e deixei ficarem os três comentários seguidos, eu sei que foi erro, mas é pelas estatísticas =)
 

At 9:37 AM, janeiro 20, 2006, Anonymous Bárbara said...

hm.. Eu gosto de "disegno". Deve ser muito chique dizer que estuda "disegno"...

Engraçado é associar Rodolfo a pessoas gordas, conhecendo o Capeto, tããããããããão magrinho.. :-)
 

At 11:50 AM, janeiro 20, 2006, Blogger Grimble said...

Tá bom, concordo que algumas palavras repetem o som do que representam Significante, ado etc. E "créu"? Não merecia um lugar nesse Olimpo dos Signos?
 

At 12:37 PM, janeiro 20, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

merece sim! genial! aliás, vc aprendeu a rezar o terço? Olha só, que legal:

Créu (oração)

Créu em Deus Pai Todo-Poderoso,
Criador do céu e da terra,
créu em Jesus Cristo Nosso Senhor,
que foi concebido pelo poder do Espírito Santo,
nasceu da Virgem Maria,
blablabla
blablabla

Créu no Espírito Santo,
na Santa Igreja Católica,
na comunhão dos Santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne,
na vida eterna.

Amém.
 

At 4:10 PM, janeiro 20, 2006, Blogger Mauro said...

Toró também acho que é de origem indígena. Cá entre nós, eles sabiam nomear as coisas até melhor que os portugueses. Engraçado como o verbo latir em quase todas as línguas é onomatopéia, e totalmente diferentes.
 

At 8:01 PM, janeiro 22, 2006, Blogger Rodrigo Rego said...

bárbara, um aparte tardio à palavra que vc inventou:

disegno realmente é cheio de estilo, mas já imagionou se usassem a grafia em português? disenho? Parece um paraíba falando. Pra ver como a escrita influencia tanto quanto a sonoridade
 

At 9:04 AM, janeiro 23, 2006, Anonymous Bárbara said...

ah, eu não inventei!

"Disegno" é design em italiano. E é pra ser falado na Italia mesmo. Eu quis dizer que deve ser chique estudar design na Itália... :-)

E pra resolver a questão, proponho que estudemos design na lingua do Mussum! Viva o "designis"!
 

At 12:36 PM, janeiro 24, 2006, Anonymous Lili said...

Rodrigo,

Fofo não existe. Quer dizer, existe, mas explica pra mim o que é fofo sem usar as mãos. Não dá. Fofo é igual qualidade: a gente fala muito mas não diz nada.

Tenho um amigo que tem como palavra fonéticamente preferida Hortifrutigranjeiros. Eu falei da Hemoglobina (e achei legal tua idéia da Hemoglopina) mas não falei da "Óptica". Acho óptica tão refrescante... podia ser nome de pasta de dentes.

O Mauro falou do Toró... sabe que existem muitas palavras que surgiram como representação de algum fenômenos. Trovão, em diversas línguas, incluindo o português, tenta se aproximar do barulho que o dito faz. Bumbo também. Isso é expressividade.

Ah! Adorei sua constatação sobre o ósculo! =D

Bjo.
 

At 10:58 AM, janeiro 25, 2006, Blogger Mauro said...

ósculo? ósculo de graus ou ósculos escuros? O que é um ósculo afinal? Que tal "designo"? Soa mal. Por que a gente sempre acha que qualquer palavra nova que soe portuguesa soa mal? Por isso que a gente usa anglicismo pra tudo, até pras palavras velhas: aleatório virando randômico, artigo virou paper, álbum virou book, broche virando pin. E não é nem só com o inglês, acho que poucos restaurantes servem salmão, em vez de salmon ou saumon. Mas o meu próprio "designo" eu já to achando uma merda mesmo.
 

At 10:26 AM, janeiro 26, 2006, Anonymous Lili said...

Mauro,
por um lado eu concordo com você: temos essa péssima mania de fagocitar tudo o que vem de fora. Culpa do povo da semana de 22 que disse que o legal era a antropofagia. Agora tem um moço, o Michel Melamed, que tá dizendo que a gente já fagocitou demais, agora tá na hora de vomitar tudo isso. Ele chama o movimento de regurgitofagia. É bem legal.
Mas uma coisa eu tenho que dizer: broche e pin são coisas diferentes. Broche é aquele de alfinete, que entra de um lado do tecido, passa por dentro e sai do mesmo lado. Pin é aquele pequeno, de afinete reto, que fura o tecido e prende com uma tarracha do lado de dentro. Mas a gente nem tem muitos desses por aqui.
Bom, fico por aqui. Um ósculo (ou beijo) pra você!
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
Rio de Janeiro

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