quinta-feira, fevereiro 02, 2006

A crise do blog, parte um

Este é um post ensaístico hipotético sobre a crise blogueira que pode um dia vir a me afetar. E caso eu seja posto na lona pelo desânimo de levar essa bodega pra frente, os motivos serão três, o primeiro dos quais será o assunto de hoje.

Falta de rumo. Porque esse blog nasceu com uma meta, mas a está perdendo. Ele se propôs a aproveitar este quase findo ano de intercâmbio em Berlim para fazer uma mistura de ficção com realidade, em que não se pudesse decifrar onde termina o meu dia-a-dia factual em terras distantes, e onde começa o besteirol. Mas quando encontrei a melhor fórmula pra fazer essa mistura, veio o problema:

É uma formulinha muito da escrota. Ela me exige textos que precisam ser mamutes pra comportar a mirabolância de algumas histórias. E isso consome muito mais tempo e miolos do que eu deveria me permitir. Além do mais, por incapacidade de elaborar toda semana um aglomerado coerente de parlapatices dessa estirpe, muitas vezes sou obrigado a ejetar textos tampão que não se encaixam na proposta do blog.

Se desejo a mim mesmo uma vida longa como blogueiro, é hora de considerar então uma mudança na linha editorial. Andei fazendo uma ronda atrás de blogs que me revelassem novos ares, só pra constatar que a imensa maioria não pretende ser nada muito diferente de um diário umbiguista virtual. Adoro todos, mas pra mim não serve. Tenho essa paranóia de que todo mundo está atrás de brecha pra julgar minha rotina com uma tábua dos mandamentos na cabeceira. Quer ver? Exemplo:

“Semana passada enfim meu estágio terminou.”

Que no enrosco com a imaginação deturpada de vocês, passa a significar que: esse vagaba não gosta de trabalho; e além disso: se o estágio dele terminou um mês antes do intercâmbio, quer dizer que, como se não bastassem as criancinhas famintas da caatinga serem privadas do dinheiro que lhe é nababescamente desviado, esse come-e-dorme ainda vai gastá-lo com viagens e mulheres.

Outra: “Eu e minha irmã Camila fomos numa casa de chá tadjiquistanesa”

Vocês: ô criatura carente, já é a terceira vez que esse panaca recebe a visita de parente, vê se compra um travesseiro pra abraçar em vez de ficar forçando a família a viajar pra Alemanha só pra matar as saudades; e ainda: não só vocês, mas os robôs da CIA que vasculham a internet vão associar o Tadjiquistão ao meu nome e suspeitar de ligações minhas com a Al Qaeda, ou pior, da minha irmã com a Al Qaeda, e daqui a pouco estaremos nós dois gentilmente recebendo a visita de esquadrões da Swat descendo pelo teto; e pra fechar: casa de chá, fala sério, esse moleque é fresco.

Compelido a me autocensurar pra evitar esse tipo de constrangimento, meu suposto diário virtual vai se reduzir a coisas inócuas como:

Notícia da semana: meu cortador de unha quebrou. Fim.

3 Comments:

At 9:09 PM, fevereiro 02, 2006, Anonymous Lili said...

hahahaha...

Adorei, Rodrigo!

Mas existem outras saídas. O Rivotril é meio pessoal meio informativo, por assim dizer. Foi a fórmula que surgiu com o tempo, e por enquanto funciona. Mas uma hora ela vai acabar, óbvio, porque senão seria como escrever um livro infinito, e isso não dá mesmo. Aliás, já tou até pensando no substituto dele...

Adoro teu blog. Se você gostar dele, deveria continuar. Se não... crie outro! ;)

Bjo.
 

At 3:57 PM, fevereiro 05, 2006, Anonymous camila, deine liebe schwester! said...

rodrigo, vc nao vai acreditar qual foi o nosso jantar de sabado!!! uma panela, no meio da mesa, como se fosse aqueles negocios de fazer crepe, mas com fundo, digamos. Na mesa, tudo a disposicao. molhos, arroz, legumes, verduras, frutas, peixe, carne. cada um enfiava o que quisesse na panela pra fazer a sua comida!! exatamente o que a gente comeu naquele restaurante chines, com musica country, clima de havai e donos americanos!
 

At 1:47 AM, fevereiro 09, 2006, Blogger Mauro said...

morrer agora que você fez a template irada? Nem vem! Tenho certeza de que isso continua interessante, pense bem, ninguém conhece TODOS os aspectos da sua vida. O pessoal da Esdi não sabe o que rola no Big Ben (nem eu, pra falar a verdade), e vice-versa.
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
Rio de Janeiro

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