quarta-feira, maio 11, 2005

Maus Habitos

Um dos piores costumes dos alemães é o de pagar esporro de graça. Volta e meia sou abordado por desconhecidos carrancudos falando pra não andar na ciclovia, pra não tirar meleca, pra esperar o sinal fechar antes de atravessar. Esse tipo de coisa vai gradualmente te enervando, e a última foi a gota d'água.

Tava eu no meu canto sossegado voltando da faculdade no S-Bahn (trem de superfície) vazio, meti o pézão no banco e me preparei pra tirar um cochilo. Não é que me vem um cara, nem era um velho rabugento não, tava mais pra "jovens hitleristas", menos de vinte e cinco anos, e reclama comigo apontando pro meu pé e resmungando alguma coisa na língua esquisita que se fala aqui. Mandei-lhe um "Ich verstehe kein Deutsch" com bastante sotaque pra ver se ele parava de encher, e olhei pro outro lado. Mas o sujeito continuava insistindo, esbravejando mais ainda e assinalando a posição correta do pé de um alemão civilizado no trem.

Não me contive. Aproveitei a surpresa e parti pra cima dele com o sapato que estava em cima do banco na mão e martelei-lhe a cabeça cinco vezes até o cara desmaiar. Depois peguei o corpo e coloquei com a cabeça pra fora do trem, a porta teve que fechar várias vezes até decepá-la. Agora eu a carrego na mochila, e cada vez que um mala vem reclamar do meu comportamento terceiromundista, eu a mostro pra servir de alerta.

Mas pobre tolo que sou, aqui ninguém se intimida tão fácil. Ontem chegou um cara pra reclamar que a mochila tava vazando sangue, e que eu não posso ficar levando cabeças decepadas por aí. E se fosse absolutamente necessário, que ao menos usasse algo impermeável, pra não manchar o banco do trem.

Desisti. Agora eu simplesmente obedeço. E estou indo pra Polônia pra desestressar.

7 Comments:

At 9:36 AM, maio 12, 2005, Blogger Alexandre said...

cara, fiquei com o ideia do ricardo fazer uma tatuagem na minha cabeca. imaginei a historia toda.


"Já de noite, chegando em casa, da faculdade rodrigo vai direto ao quarto. Se surpreende de ainda encontrar ricardo na cama, entretido com algo.

-cara, seu turno acabou.

Depois de um mês de convivencia os dois perceberam que nao precisavam realmente de um apê tão grande, já que os dois viviam em fusos distintos. Alugaram o quarto extra e repartiram o outro em turnos de doze horas, um dormia de dia, o outro a noite. Não comentaram nada a ninguem: eles não queriam ter de explicar essa história de dividirem a mesma cama.

Mas dessa vez o ricardo parecia estar acordado concentrado com algo em seu computador. Cabe uma explicação: ele jamais comprou um laptop, descobriu na internet que se plugasse um mouse e teclado na saida USB da sua camera digital poderia instalar o photoshop. E era exatamente o que ele estava fazendo, sua mao esquerda freneticamente apertando as setas direcionais para cima e pra baixo enquanto olhava fixamente para o que, para o rodrigo resumia-se a um R imóvel na tela.

-o que é isso?
-minha tatuagem
isso merecia mais explicações, claro, mas não era mais curioso do que aquilo que ele fazia com os dedos como se jogasse tetris.

-o que voce está fazendo?...
-minha tatuagem
-... Com os dedinhos?
-ajustando entrelinha.
-é uma linha só!...
-rodrigo você é muito tosqueiro.

Parou. Olhou um pouco mais de longe. Parecia satisfeito. E voltou a apertar as setas, mas dessa vez, para os lados. Rodrigo queria perguntar, mas sabia a resposta. Era o kerning. Ao inves, perguntou:

-R de rotis ou ricardo?
-De bjoRk.
-Eu vou preparar uma salsicha, depois vou dormir e voce vai trabalhar na sala.
-Já estou terminando.

Não estava. Ainda passaria a noite entretido decidindo entre uma rotis small caps caixa alta ou baixa. No primeiro segundo na mesa do tatuador apagou. No dia seguinte, qual não foi seu horror ao retirar a atadura e encontrar uma truetype bastarda no braço.

O tatuador, um sovaco imigrante fugido da guerra falava alemão meio pela metade. O ricardo tambem, mas não a mesma metade. Na lingua internacional dos palavroes ele explicou que o arquivo nao abriu, mas que ele refez igualzina no word, e como assim o érre está errado, que érre é tudo igual, que isso é a senhora sua mae e ôpa que gilete é essa ?

A gilete em questão não era nenhum produto da fabricante americana de produtos para higiene masculina, mas de uma firma japonesa que produzia facas com uma longa lamina de partes descartaveis, chamada olfa. Essa faca, era o que ricardo apontava nao para o imigrante, mas para a sua tatuagem.

-Tira e reimprime."
 

At 5:22 AM, maio 13, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

QUAQUAQUAQUAQUA!!!

cara, essa foi a parada mais engracada que eu li esse ano! De perder o folego, e nego aqui em volta ficar me olhando tentando entender. Ficou MUITO maneira a historia, vc devia escrever no meu lugar. A coisa dos turnos ja foi discutida quase que de forma seria por aqui.

E pra quem nao conhece o Ricardo, saibam que a caricatura está perfeita!
 

At 7:30 AM, maio 13, 2005, Blogger Maninha ou Mamae said...

Voce e Alexandre estao otimos em suas estorias. Quando Rodrigo acabar esta viajem acho que deveria publicar este blog. A estorias sao demais e very interesting.
bjs
 

At 4:41 PM, maio 14, 2005, Anonymous Anônimo said...

Concordo plenamente! Rodrigo deve lançar um livro sobre sua vivência em Berlin.
Este é um blog intelectualizado! Parabéns pro Rodrigo e pro Ricardo pela criatividade e capacidade de expressá-la em palavras.
E é claro que as mamães também merecem parte do elogio...
Tania
 

At 6:47 AM, maio 16, 2005, Blogger Mauro said...

Caramba, é impressão minha ou agora a MINHA mãe tá comentando aqui?
Essa parada de encontrar o ricardo na cama entretido com algo me faz imaginar uma outra história menos publicável, mas deixa pra lá, nem conheço o cara...
 

At 3:26 PM, maio 16, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

Essa historia do livro nao eh de todo louca. Claro que nao cheguei a pensar em livro (ou cheguei, mas a ambicao nao me deixou ir tao longe), mas a ideia era que o blog fosse coerente do inicio ao fim, e que um post de algum jeito dependesse de outros, de forma a concatenar alguma coisa com inicio meio e fim. E o ano aqui na alemanha virasse, no final das contas, uma especie de romance bizarro fragmentado, como que feito atraves de anotacoes de caderno. Mas nao consegui ter criatividade e disciplina suficientes pra levar isso adiante (na verdade, nem cheguei a comecar) e ficou essa colcha de retalhos mesmo. Pelo menos as mamaes estao gostando =)
 

At 11:00 PM, fevereiro 10, 2006, Anonymous  said...

hua,hua,hua...Bem que eu te avisei que Alemão fazia essas coisas.
Por que não mumificou logo a cabeça antes de sair com ela por aí pingando sangue, e quando começasse a feder, nem se fala...
Valia mais apena tê-la deixado no trem com uma placa de aviso: " Não se metam com quem está descançando. Bitte!"
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
Rio de Janeiro

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