quarta-feira, outubro 05, 2005

Ostalgie

É como foi batizada na Alemanha a onda recente de saudosismo do Leste – e Leste, em bom alemão, significa DDR, a república socialista de antes da queda do muro. Catapultada e disseminada mundo afora pelo Adeus, Lenin, aquele filme em que um filho tenta simular a antiga Alemanha Oriental para a mãe comuna que acordou do coma de quinze anos, a Ostalgie é a princípio inofensiva. Trata de exaltar a inocência nas embalagens dos artigos de supermercado no Leste, que travavam com o consumidor um diálogo bem diferente da cartilha selvagem do capitalismo. Trata de se afeiçoar aos pequenos ícones do lado direito do muro, como os bonitinhos bonecos do sinal de pedestre com seus chapéus cocos, reservando-lhes o carinho de uma criança crescida pelo teddybear surrado.

Mas a Ostalgie começa a ficar perigosa quando produz filmes como Sonnenallee e NFA. O primeiro faz graça da vida miserável de uma adolescente no governo oriental, e o segundo transforma em patetas os oficiais do exército comunista. Aí o bicho pega. Porque caricaturar realidades que nada têm de divertidas, fazendo do regime ditatorial motivo de riso, camuflam sua perversidade e induzem o povo a perdoar o passado negro de seu país.

Isso é o que diz minha professora de alemão, com quem tive sobre o tema uma discussão claudicante. Claudicante da minha parte, errando todas as declinações. Ela tinha a vantagem de ser fluente na língua.

Então rebato agora, na língua em que o fluente sou eu, que virar piada é o último passo para um tabu cair do pedestal, ser chutado no meio-fio das calçadas movimentadas e ficar desimportante o suficiente para impossibilitar seu retorno. Tanto melhor então que os alemães estão, com a Ostalgie, aprendendo a rir de seus traumas, pois só assim eles desaparecem.

Mas você nem viu nenhum dos filmes, a professora retruca, como pode ficar teorizando em cima?

Ver, você não viu também não, espertona.

Só que as estatísticas estão aí mostrando que 25% dos berlinenses ocidentais e 18% dos orientais estariam era bem satisfeitos se tivesse um murozinho cortando a cidade no meio. Não parece motivo suficiente para ficar com um pé atrás?

Certamente é só da boca pra fora. A Sonnenallee do filme, que já foi comunista um dia, hoje abriga um complexo de entretenimento com um show permanente de imitadores de Elvis, Blues Brothers, Michael Jackson e outros menos cotados. Terreno mais seguro não há para fazer piada com o socialismo.

E no entanto os brasileiros, tão famosos por rirem de suas desgraças, até hoje não conseguiram resolver seus problemas.

Ainda que com todos os problemas que temos, sejamos mais felizes que os alemães.

Tenho um amigo que diz que se tivesse que representar o espírito do Brasil num pequeno desenho, faria uma poça de areia movediça terminando de engolir uma mão com um polegar pra cima em sinal de positivo.

E eu representaria o pensamento alemão com um campo florido lindíssimo e um babaca mandando ver no cortador de grama.

Cortador de grama é o que passaram no seu cérebro.

Areia movediça é onde afunda a sua inteligência.

E aí não teve jeito, a discussão descambou para a violência.

6 Comments:

At 2:02 PM, outubro 05, 2005, Anonymous Bárbara said...

ai, ai... já tive tantas discussões assim com alemães... frases do tipo "nós não temos direito de fazer piadas" ou "como vc pode achar que aqui é bom? vc não sabe o que aconteceu aqui?"...

já desisti de tentar convencê-los de que todo mundo faz merda de vez em quando...

Mas pelos menos eles têm weizenbier pra afogar as mágoas!
 

At 3:17 PM, outubro 05, 2005, Anonymous luayza said...

engraçados... já era pra serem adultos e saberem lidar com os problemas!
mas sair do tabu pro riso acho meio estranho e artificial. o saudosismo do leste já vi e ouvi tb e ainda nao entendo... tudo bem q os rotulos sejam bonitinhos, mas o que mais será que eles querem dizer com isso?
 

At 6:48 AM, outubro 06, 2005, Anonymous Douglas said...

Cara, o que eu sei é que os alemães são doutrinados para se sentirem um lixo devido ao holocausto. Na escola isso é bastante estudado, tem vários monumentos na Alemanha sobre o tema (como aquele "cemitério" inútil). Tudo para tentar se redimir sobre algo que a geração atual não fez.

Mas mudando um pouco o assunto, a professora era uma bárbara viking de tranças, ou você destruir a cara dela? xD
 

At 11:47 AM, outubro 06, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

eu adoro o cemitério inútil que foi construído agora. Pra mim é a melhor atração de berlim, mas não pelos motivos que devia, legal é correr por entre os túmulos e dar sustos nos amigos, ou fazer esconde-esconde, ou melhor ainda, passear pulando de túmulo em túmulo, no início é fácil mas tem que ser macho quando eles começam a ter quatro metros de altura.

E gente, claro que eles têm alguma razão em ser tão traumatizados, a gente olha de fora e não sabe direito, mas se tivesse havido algum genocídio no Brasil, como será que nos sentíriamos agora? E peraí, cadê os nossos índios?
 

At 5:49 PM, outubro 06, 2005, Blogger Mauro said...

"Nossos índios eram bárbaros e tiveram que ser combatidos pelos bravos bandeirantes para tornar a colonização possível, nada disso poderia ser feito sem as armas." Isso eu ouvi pessoalmente de um amigo na puc. O que acontece se alguém defender publicamente o holocausto na alemanha? E o pior é que eu não sei onde é melhor. Me amarrei muito na areia movediça!!!!
 

At 10:58 AM, outubro 07, 2005, Blogger Rodrigo Rego said...

Mauro, nada do que o seu amigo falou é mentira. Nossos indios eram barbaros? Eram. Eles tiveram que ser combatidos pelos bandeirantes pra tornar a colonizacao possivel? Tiveram. As armas foram imprescindiveis? Foram.

Isso foi bom? Aí já complica, mas o cara nao emitiiu nenhum julgamento, entao... Claro que é tendencioso chamar os bandeirantes de bravos, mas vamos assumir que foi num sentido não de corajoso, mas de furioso.

E a idéia da areia movediça é genial, mas não foi minha... queria que tivesse sido.
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
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