sábado, junho 02, 2007

A sincera opinião de Mozart sobre os Beatles

Pode parecer a princípio, e este blog já andou mal-afamado por isso um tempo, que qualquer linha de raciocínio consistente que desenvolvemos aqui neste canto acabe em no máximo quatro etapas desagüando nos Beatles. É mentira. Senão, rebobinemos um pouco a fita.

1- duas horas diárias sentadas no ônibus do metrô até a Barra.
2- Assim falou Zaratustra no repeat todo dia de música de fundo, durante o o trajeto inteiro.
3- Mozart no repeat mental, contrabalançando a influência nefasta de Strauss.
4- Não os Beatles, mas a música contemporânea de uma forma geral, e a opinião de Mozart sobre ela se fosse teletransportado. É no que eu mais venho pensando ultimamente.

Cada vez que conheço uma nova banda penso em como Mozart a avaliaria pelas convenções musicais da sua época. Não acredito que ele fosse necessariamente achar tudo uma merda, Mozart não é Beethoven, ele tem cabeça aberta, e se está claro que detestaria hip-hop, de repente encontra na Ivete Sangalo uma revolução que só quem perdeu dois séculos consegue enxergar. Por isso seria natural que ele adorasse os Beatles, se não tivesse sido apresentado à música deles por um idiota que botou In my life pra tocar achando que aquele trechinho chupado de J. S. Bach fosse facilitar a assimilação. Mozart saiu chamando Lennon de charlatão, e não adiantou que depois o camarada colocasse I am the walrus, Come together, Norweggian wood, ele achou tudo uma bosta, cada vez mais enfático conforme as músicas de John se seguiam. A mim, no entano, me deu a impressão de que o palavrão depois do fim de A day in the life era o reconhecimento de um adversário à altura, mesmo sem perceber. Eu não sei, acho que aquele crescendo cacofônico vai ficar rodando na cabeça dele, não duvido que ele procure um tempo atrás da fonte do plágio, e quando não encontrar vai admitir afinal que era uma boa música. Mas até lá continuará arrogante, dizendo que se aqueles são os músicos mais aclamados do futuro, ele mandaria o filho ser arquiteto.

Ainda na defensiva, passou batido por Paul McCartney. Grunhiu para Yesterday, sorriu na introdução com pianinho de Martha, my dear e pulou Helter Skelter. O único beatle com quem Mozart simpatizou foi Harrison, e por causa de uma música só, Here comes the sun, que ele chamou de filhote de Kleine Nachtmusik. Chegou a cogitar, rindo abraçado a esse camarada inábil, a possibilidade de retrabalhá-la num movimento extra para Nachtmusik, quando a Nacht – noite acaba e o sol surge. Ele adorou a coincidência temática, ri sozinho, parece até meio senil depois do teleporte. O certo é que adotou George como um aprendiz, um que não lhe representa ameaça pelo talento, mas cuja evolução musical tutelada seria para Mozart muito gratificante.

Esse Mozart teleportado já tem opinião sobre vários artistas contemporâneos. Acho que vou abrir uma coluna neste blog para que ele destile seu veneno. Para breve.

6 Comments:

At 6:23 PM, junho 02, 2007, Anonymous Grave said...

AAAh, sei. Você é um daqueles caras que estão acima dos Beatles. Não basta dizer "A música de hoje é uma bosta, bons eram os Beatles", tem que esculaxar os Beatles e dizer que bom mesmo era o Mozart. Uma pessoa capaz de comparar George Harrisson a Wolfgang Amadeus Mozart mostra que não entende m... de um nem do outro.
 

At 12:48 AM, junho 04, 2007, Blogger Mauro said...

o que ele pensaria do edson cordeiro cantando a flauta mágica, ou da sua própria música sendo usada em toques de celular?
 

At 8:47 AM, junho 06, 2007, Blogger Luyza said...

o titulo era "minha opinião sincera sobre Mozart e os Beatles" ou "A opinião sincera de Mozart sobre os Beatles". Ainda existe quem não entenda a diferença entre autor e eu-lírico?
É por isso que sou a favor da ditadura...
 

At 6:09 PM, junho 06, 2007, Blogger Rodrigo Rego said...

Bom, é verdade que a princípio pensar no Edson Cordeiro cantando flauta mágica possa soar bizarra, mas se vc pensar, ele e o Ney Matogrosso são provavelmente os mais indicados pra tarefa... já os toques de celular, realmente acho que ele não perdoaria.

E não entendi o que tem a ditadura a ver com pessoas que lêem o que querem, e não o que está escrito. Extermínio, é isso?

Mas esse anônimo evidentemente já é de casa, e se não existisse o Mauro, diria que era vc mesmo Luyza, pelo link pra onde o nome leva...
 

At 2:33 PM, junho 17, 2007, Blogger Luyza said...

ok, vou ficar quieta nos proximos meses...
 

At 5:46 PM, junho 17, 2007, Blogger Rodrigo Rego said...

não, não, fale, fale!...
 

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Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

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