quarta-feira, julho 02, 2008

Site de designer não pode ser só um portfolio online

Desde 2003 que eu venho pensando em ter meu próprio site. Eu e ele temos uma relação parecida com a de um escritor e a primeira página de um livro, eu já amassei muitas depois de escrever a primeira frase. Só comecei a ficar contente com os resultados depois de decidir dar uma olhada no resto da internet e ver o que outros designers estavam fazendo. De uns meses pra cá acumulei um catálogo grande de referências que começaram a pautar minhas escolhas.

Fazendo essa seleção, esbarrei com sites de visual impecável e trabalhos incríveis, mas que fazem um péssimo trabalho em apresentar o designer. Sites que dão ênfase demasiada ao portfolio em detrimento de outras informações mais importantes para o visitante.

O portfolio do designer é visto pela própria classe com reverência excessiva. Um bom portfolio consegue estágios, empregos e a admiração dos colegas. Nada mais natural que vire o centro das atenções do seu site.

Mas o resto do mundo não dá tanto valor ao seu portfolio. Então a menos que seu site se dirija prioritariamente a outros designers — o que não tem nada de ruim — ou que o seu portfolio seja algo devastador — não é — restringir seu site a um portfolio online é um erro.

Então vamos assumir daqui por diante que você é um designer mediano procurando clientes — a melhor razão para ter um site próprio.

Exemplo prático: tenho tido muitos clientes dentistas ultimamente. Sabe o que eles mais querem mostrar nos trabalhos que fazemos? Dentes. Não, sorrisos não. Dentes. Fotos com afastadores de bochecha expelindo gengivas pra todos os lados, um show dos horrores. Eu tenho de convencê-los de que gengiva não atrai clientes, por mais bem feito que esteja o canal.

O seu trabalho são gengivas para as outras pessoas. Não tão horripilante, espero. Mas é fato que elas não enxergam nem o alinhamento dos dentes nem o da tipografia.

Um trabalho ortodôntico de alta categoria. Você vê alguma coisa além de gengivas?

Não que o portfolio seja desnecessário. Primeiro, porque se não estiver lá as pessoas vão assumir que seu trabalho é tão ruim que não vale a pena mostrá-lo. Depois, porque ele cria no cliente um senso de deslumbramento que vai ajudá-lo a se convencer de que você é o cara certo para fazer o projeto dele.

Mas existem outras coisas tão importantes quanto. O que seu cliente te pergunta numa reunião? O preço. Você pode até dar números no site, mas existem mil razões pra omitir essa informação. Que tal o processo de trabalho? Como vai ser a relação entre vocês? Pra você é óbvio, mas ele pode nem ter idéia. Ele pode palpitar no seu trabalho? Deve. Mas talvez nem saiba disso, e esteja com medo de te contratar achando que vai ter que acatar seu primeiro layout pra não pagar mais.

Outra: o que exatamente você faz? Não se limite ao vago “sou designer, eu resolvo problemas”. Diga folders. Marcas. Livros, revistas, sites. Cadeiras desconfortáveis. Só de responder isso, você pode receber oportunidades de bandeja.

Faça o possível para que o visitante saia do seu site sabendo tudo sobre o serviço que você oferece, e portanto seguro para depositar uma grana na sua conta bancária. É o que eu estou tentando no meu.

Exemplos:
Get Finch: Um site lindo, trabalhos fora de série e nenhuma preocupação com possíveis clientes.
Bright Creative: Trabalhos bons, mas menos impressionantes. Mas a clareza de discurso o torna muito mais acessível.

Veja também a discussão nos comentários deste post.

8 Comments:

At 7:40 PM, julho 02, 2008, Anonymous bárbara said...

opa! opa! criei polêmica! :)

vamos continuar então...

O que eu disse sobre clientes diferentes, não foi o que vc entendeu ("clientes que querem site / clientes que querem outra coisa que não seja site"). Me expressei mal, deixa eu ver se eu consigo explicar...

O que eu percebi dos seus comentários e da Luayza, foi que os clientes que eu busco, e com os quais eu acabo trabalhando (fora exceções de fundo mercenário como o nosso co-projeto) é que são diferentes do seu mesmo. E diferentes, eu quero dizer, em termos de..hmmm.. "leiguice"

Webdesigners são contratados geralmente por pessoas que realmente não entendem, nem tem que entender, de design. Seu papel deve ser mesmo um de catequisador, de certa forma. Nada de errado nisso, de forma alguma. O mesmo acontece com muito do que é feito em branding, design promocional, etc, etc, etc.

O que acontece comigo é diferente, porque eu geralmente trabalho com e para "não-leigos". Gente de editoras, de comunicação, de moda, de indústria cultural, ou de design mesmo. Não preciso catequisar ninguém. Preciso é mostrar serviço, bons trabalhos. Preciso saber do que eu estou falando, porque eles sabem muito bem.

Então, eu entendo perfeitamente que o seu site deva ter bastante texto explicativo. Faz parte.

Entendo que eu acabei generalizando no meu comentário anterior. Entendi melhor o público com o qual você quer trabalhar.

O meu portfolio, por exemplo, é feito para as pessoas que vêm por indicação. Eu faço um bom trabalho pra alguém, ele me indica pra outro. Um amigo precisa indicar alguém, liga pra mim. Eu preciso de ajuda num trabalho, indico um colega.Eu não me sinto confortável trabalhando para alguém que me viu na internet. Ser indicada pra um cliente é também uma indicação pra mim, de que o cara não é picareta. E quem chega por indicação quer ver meus trabalhos pra confirmar se eu sou boa mesmo. Ou quer mostrar pra pessoa a quem ele indicou se eu sou boa mesmo. É muito rápido. Tenho que pegar pelo pé. Tenho que impressionar na hora mesmo. Ninguém vai passar uma hora lendo os textos sobre como é o meu processo de trabalho. Para isso tem as reuniões.

Mas no seu caso, tudo bem, porque o seu site é de captação também. E funciona, acredite. O escritório em que eu trabalhei mais tempo vivia recebendo pedido de orçamento de gente que viu o site e entrou em contato. E pra esse tipo de abordagem, vale a pena mesmo tudo o que você citou no post.

Mas não generalize, (como eu generalizei no primeiro comentário) porque nem todo designer segue o seu modelo de trabalho ou de abordagem.

E não se engane achando que não "entender o alinhamento da tipografia" é não saber se o trabalho é bom ou não. Já tive muitos clientes super-leigos em design e, não é porque eles não sabem o que é kerning ou falam "tipologia" em vez de "tipografia", que eles não sabem direitinho reconhecer um texto mal diagramado...


câmbio
 

At 8:31 PM, julho 02, 2008, Blogger Rodrigo Rego said...

Ah moleque, vai pegar fogo essa discussão!

Bárbara, acho que nosso público então não é o mesmo. Seu público é de designers — aí incluídos os editores, marqueteiros, fashionistas e etc. Então nada que eu falei vale pra você. Pra designers, o portfolio é sagrado. Não acho que seja pecado omitir o resto pra colocá-lo em destaque.

Mas mesmo assim... acrescentar não ia machucar. Desde, claro, que se preserve ao máximo o portfolio. Isso posto, prejudicar não ia.

Agora, estou ansioso pra receber clientes via internet. Demanda de trabalho por email? O máximo. Tomara que funcione tanto quanto no seu ex-escritório.
 

At 9:35 PM, julho 02, 2008, Anonymous bárbara said...

Epa, epa! Não disse que meu público é de designers. Até inclui designers ocasionalmente também, mas a maioria é de não-designers.

"Editores, marqueteiros, fashionistas, etc" estão bem longe de serem designers, mas também bem longe de serem dentistas.

E, me desculpe, mas eu continuo achando que o que distrai do foco principal está a mais. Atrapalha sim. E isso é a primeira coisa que aprendemos na escola de design.

Mas para o público que você quer, o portfolio não é o principal. Os bonequinhos, textos e etc parecem ser mais importantes mesmo. Então, repito: tem tudo a ver mesmo você fazer o que você falou.

E é uma questão de estilo, claro!
Se um designer faz trabalhos mais ora web2.0, etc, faz sentido fazer um site assim também. Como o pessoal mais clean tende a fazer portfolio mais clean também. Como o da Pentagram (que não é tão bom) e o da Frost (que é).

Mas mesmo o pessoal "mais digital interactive impossível" — como o Guilherme Borchet(o portfolio pessoal) e a agência dele, a R/GA — ou gente que faz trabalhos "super-mega-hiper-busy-tudo-menos-clean" — como o Sebastian Onufszak do Ingraphicswetrust e o Eduardo Recife — fizeram seus sites-portfolios com ênfase total nos trabalhos. E ficaram ótimos, sem perder a personalidade deles. E são super-requisitados, trabalham muitíssimo.

Enfim... concordamos em discordar? :)


PS: Eles recebiam esses pedidos através da internet porque se cadastraram em um monte de diretórios. Todos os possíveis. Recomendo que você faça o mesmo. Pelo visto, funciona.
 

At 9:52 AM, julho 04, 2008, Anonymous Luyza said...

Estou adorando assistir a discussao. Da pano pra manga. Barbara e Rodrigo tem publicos diferentes e buscam visitantes de perfil diferentes, acho que isso ja claro.

A ultima da Barbara de "E, me desculpe, mas eu continuo achando que o que distrai do foco principal está a mais. Atrapalha sim."
Fez todo o sentido. Que dificil!

Eu ja usei portfolio em si como um trabalho, que servia pra fazer propaganda de mim (nao pelo metodo de trabalho mas em produto mostrado 1:1). Pq achava que as imagens dentro dele nao eram fortes o suficiente pra isso. Nao sei se foi meio covarde. Logo, logo me irritei com ele pois nao deixavam os trabalhos se mostrarem direito.

E estou cada vez mais e mais pro site clean, quase transparente e deixar os trabalhos falarem por si, com um minimo de explicacao. Tb pq me interessa um publico parecido com o da Barbara. O leigo q sabe muito bem dizer quando algo o agrada ou nao, ainda que nao saiba explicar que eh por causa do kerning.

Mas como explicamos pro dentista que foto de gengiva nao atrai cliente? E tem como catequizar os que preferem o texto mal-diagramado ao bem-diagramado? Ou melhor joga-los na fogueira? E do designer mesmo esse papel de catequisador ou eh caso perdido? que dificil.

Foi mal se falei um monte de besteira, o pensamento ainda esta em ebulicao...
 

At 10:41 AM, julho 05, 2008, Anonymous bárbara said...

Luayza, uma dica: pra catequizar os que preferem o texto mal-diagramado ao bem-diagramado, a boa é mostrar um do lado do outro. A maioria das vezes eles preferem o mal-feito por falta de referência mesmo, não por um "mau gosto incurável" ou algo assim... Eu já fui a "garota do marketing" que contratava design ao mesmo tempo que instaurou "comic sans" como fonte oficial do departamento. (É verídico! Meu passado negro! hahahaha)

Talvez por isso mesmo, eu ainda me irrito comigo mesma quando me pego menosprezando algum cliente nesse sentido. Se todos tivessem um conhecimento ilimitado na área visual, não precisariam contratar a gente, certo? E é bom sempre a gente ter sempre em mente que ninguém conhece tanto sobre o negócio do cliente como ele próprio, então quanto mais ouvirmos com ouvidos e mente aberta o que eles têm a dizer, mais fácil e mais bem feito o nosso próprio trabalho.

Um exemplo da arrogância em que podemos cair: numa festa ficaram conversando um ex-namorado da thamytos com minha irmã. Ela, coordenadora de marketing, contrata design o tempo todo há anos. Ele, "designer bem-sucedido" em um grande escritório. Começa ele a discorrer sobre como o designer deve apresentar só uma solução para o cliente, porque o designer sabe o que é o caminho certo, e o trabalho dele é apresentar "A" solução certa. Aí vai ela argumentar que a pessoa que está contratando o designer entende mais do público-alvo, das necessidades de aplicações, da mensagem a ser transmitida, ou seja, tem como saber se a opção A é melhor praquilo do que a B ou a C. E que, ainda mais importante, a pessoa que está contratando quer se sentir parte do processo. Para o cliente escolher uma opção é participar da criação. É sentir mais que aquela marca/site/folheto/etc é mesmo da empresa dele.

Enfim, ficaram discutindo um tempão, e eu só pensando: "Será que eu interrompo e conto que este mesmo menino fez um trabalho para o escritório onde eu trabalho há um mês, e que me apresentou 3 opções diferentes pra gente escolher?"

:)
 

At 12:17 PM, julho 07, 2008, Blogger Luyza said...

hihihi... boa historia! Concordo com as 3 opcoes. Nao existe 1 solucao pra um problema.

Mas de fato acho o designer um ser muito afastado do mundo real... mtas vezes nao entende o cliente quer (ou arrogantemente ignora achando que sabe mais).

Eu estou me despedindo de uma empresa de 10.000 nao-designers que precisa urgentemente deles, mas a briga de egos eh tao grande que ha anos nada se move.

Os programadores e arquitetos chamam os designers de jardim de infancia e os designers nao conseguem convencer os homens que transformam modelos mentais de power point em screendesign, que aquilo so faz sentido na cabeca deles. Eu definitivamente nao descobri a chave. E cansei de tentar. Pelo menos aqui.
 

At 9:04 PM, julho 07, 2008, Blogger Rodrigo Rego said...

Luyza, quer dizer que até na Alemanha vocês têm esse tipo de problema?

Bárbara, se for bem planejado, não tem como o texto tirar o foco do design. Aliás, falamos muito em bonequinho e animações e tal, mas o importante mesmo na hora de comunicar o seu trabalho é o texto.

E a menos que vc seja minimalista e queira deixar isso bem explícito colocando texto nenhum, fazer uma coisa idiossincrática mesmo, estou cada vez mais convencido de que o portfolio por si não se basta, nem quando o público é de leigos nem quando é de iniciados.

Quando falamos com leigos, você pode até querer fazer algum tipo de catequese (com muito cuidado, pois se o cara está procurando um designer, ele já tem uma idéia do "valor do design", e não vai querer ouvir muito blablablá. É que nem um dentista ensinando o valor de uma boa higiene bucal no site dele. Fala sério, ninguém lê). Mas o mais importante é municiá-lo de informações que o deixem seguro para contratá-lo: o que vc faz, como faz, o que esperar de vc, o que vc espera dele, etc.

Quando vc fala com um público mais iniciado, talvez as informações sejam outras, mas continuam necessárias. Será que depois de exibir um portfolio com 20 capas de livro, não vale a pena dizer que faz capas de livro há cinco anos? E de repente, justamente por causa disso, tirar metade dos trabalhos do portfolio, já que eles só estavam ali pra comprovar a sua experiência, mas não necessariamente depunham a favor da qualidade?

Vai de novo no site brightcreative. O cara é minucioso nos textos, mas ele não está falando com leigos. Ele não explica o que é XHTML, nem as vantagens de seguir os padrões do W3C, nem o que é o CSS Zen Garden. Mas mesmo assim, ele tem muito o que explicar.

E pode ser que nem todo mundo leia, mas eu, se fosse contratar um designer, certamente gostaria de saber o máximo que pudesse sobre ele.

Enfim, discordamos frontalmente, não tem jeito. E a Luyza muito confortavelmente em cima do muro.
 

At 9:02 AM, julho 08, 2008, Blogger Luyza said...

Exatamente. Ainda nao decidi. Vou tomar um Cosmopolitan e pensar mais sobre o assunto.

Acho que cada publico pede um foco mais pra um lado que pro outro. E ambos funcionam so que pra publicos diferentes. E na duvida do publico alvo, eu faria um feirao de imagens bem impressionantes, com um pouco de texto e poucos bells and whistles.

Sim, na SAP eh ainda pior. Na Alemanha nao sei pq isso aqui eh um mundinho a parte. Sabe flamenguista q precisa de um tricolor pra tirar sarro quando o time perde? Brasileiro fazendo piada de portugues? E igual com arquitetos e programadores x designers aqui.
 

Postar um comentário

Profile

Rodrigo Rego

Sou designer, fascinado por bandeiras, jogos de tabuleiro, países distantes, e uma miscelânea de assuntos destilados quase semanalmente neste espaço.

Visite meu site, batizado em votação feita aqui mesmo, Hungry Mind.

rodrego(arroba)gmail.com
+55 21 91102610
Rio de Janeiro

Melhores Posts
Posts Recentes

Powered by Blogger

Creative Commons License